quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Sacrifício e Ordem

Em outros episódios do romance [Viagem ao Fim da Noite], [o protagonista] Bardamu justificará a perseguição alheia recordando-se da própria vitimação. Infelizmente, nem mesmo [o autor] Céline se furtou a empregar essa estratégia. A fim de justificar seu ódio pelos judeus, esse notório antissemita, exaltador de Hitler, insistia em que fora vitimado por eles. Segundo Girard, essa estratégia é muito comum no mundo moderno, em que os perseguidores na verdade buscam o papel de vítima a fim de justificar a perseguição a que eles mesmos submetem os chamados atormentadores¹.

Da tragédia grega ao romance moderno, o mecanismo do bode expiatório desempenha um papel crucial nos esforços da humanidade para lidar com o caos social e a violência incontrolável. O grupo social ameaçado pode ser uma cidade-estado, um império ou apenas um grupo de passageiros e tripulantes a bordo de um navio a vapor [, tema do romance de Céline]: a estratégia empregada para restaurar a ordem é sempre a mesa. Além disso, o próprio processo costuma se tornar, nas obras aqui examinadas, cada vez mais autoevidente e, enfim, menos eficiente. A condenação de Édipo, que no final é ratificada pelo próprio bode expiatório, restaura a ordem e santifica a vítima. O sacrifício de Júlio César acaba por alcançar a mesma finalidade, mas não sem antes complementar essa imolação com a morte do homem que sancionara tal sacrifício: Bruto. Bardamu impede o próprio sacrifício porque entende, muito mais que Bruto, o processo diante do qual se encontra. Ele sabe que os bodes expiatórios existem há tanto tempo quanto “Deus e o diabo”. Muito embora sejam conhecidos por todos, é difícil categorizá-los e defini-los em virtude de seu caráter “polimorfo”. A marginalidade, afinal, jamais é definida da mesma forma em duas comunidades diferentes.

Nas três obras literárias examinadas aqui, parece haver uma relação inversa entre a eficácia das práticas expiatórias e o grau em que o processo é compreendido. Quanto mais a arbitrariedade do processo expiatório é compreendida, menor é a probabilidade de o sacrifício alcançar os objetivos desejados. Em termos um pouco diferentes: o mecanismo do bode expiatório “se torna mais e mais eficaz à medida que há cada vez menos conhecimento”.² Em Viagem ao Fim da Noite, o sacrifício frustrado na verdade chama a nossa atenção para a falência, mais ampla, das práticas sacrificiais no mundo moderno. Para os nazistas, os judeus – tal como as classes inimigas para os revolucionários modernos – jamais passaram por um processo de santificação porque sua perseguição e erradicação jamais se dão por completo. As vítimas se multiplicam à medida que o escopo dessas perseguições crescem, mas uma erradicação catártica da violência não ocorre. O mecanismo não restaura mais a ordem; ele apenas cria mais bodes expiatórios. O porquê de isso acontecer será examinado nos capítulos subsequentes.


Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan


¹ Ao explicar o mecanismo psicológico que pode resultar nesses fenômenos, Girard escreve que “nos sentimos tentados a transformar em nossos próprios bodes expiatórios aqueles que nos parecem fabricá-los”. René Girard, “Generative Scapegoating”, op. cit., p.78.

² Ibidem, p.94.


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