Segundo Girard, esse destino é o destino de todos os homens do século XIX (e XX) após o anúncio da “morte de Deus” por Nietzsche. Após o falecimento de Deus, os homens supostamente tomaram Seu lugar e alcançaram um grau de autonomia espiritual e autossatisfação digno de uma divindade. Quando as aspirações divinas dos seres humanos terminam em decepção e frustração, eles olham ao redor de si e imaginam que os outros não vivenciaram um fracasso semelhante. Ao deseja-los e cobiçarem aquilo que cobiçam, eles procuram se apropriar de sua plenitude, de sua divindade. Nascido de um sentimento de inadequação espiritual, diz Girard, o desejo é ele mesmo “metafísico”, visto ser menos o desejo de possuir um objeto real do que o desejo de absorver, de tornar-se outro. Esse desejo jamais pode ser satisfeito, claro, uma vez que os indivíduos se decepcionarão mesmo quando em posse do objeto. Os outros, afinal, não são divindades, e possuir tanto eles quanto os objetos de desejo que eles cobiçam é algo incapaz de transformar o ser dos indivíduos desejantes.¹
Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan
¹ Em Models of Desire: René Girard and the Psychology of Mimesis (Baltimore, Johns Hopkins University Press, 1992), Paisley Livingston afirma que o desejo mimético pode surgir a partir de outras necessidades além daquela de alcançar uma forma de transcendência por meio da imitação alheia. O comportamento mimético também pode ser visto como forma de ajudar a criar o sentimento da própria identidade ou como forma de determinar que atitude tomar em determinada circunstância. Para um exame detalhado desse e de outros estímulos possíveis ao comportamento mimético, ver Paisley Livingston, Models of Desire, op. cit., p. 4-12.
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