sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Ceia e Política

O Administrador pulou. Oh Diabo! E ele, às nove horas da manhã, com comissão de recenseamento!... Para esmagar bem o amuo, cingiu Gonçalo num rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha (que nestas noites de Vila Clara o acompanhava sempre pela estrada até ao portão da Torre), João gouveia ainda se voltou, pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral “de não sei que filósofo”:

- “Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má política...” Creio que é de Aristóteles!

E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados harpejos:

- Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não vale a pena, porque em Política hoje é branco, amanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada.


A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós

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