Esquecimento e Isolamento
Não pode haver dúvida: os perigos psicológicos pelos quais passaram gerações anteriores, com a orientação oferecida pelos símbolos e exercícios espirituais de sua herança mitológica e religiosa, nós, hoje (desde que não sejamos crentes ou, se crentes, desde que nossas crenças herdadas fracassem em representar os reais problemas da vida contemporânea), devemos enfrentar sozinhos ou, na melhor das hipóteses, com uma orientação experimental, improvisada e poucas vezes muito efetiva. Eis nosso problema, na qualidade de indivíduos modernos, “esclarecidos”, que foram privados da existência de todos os deuses e demônios por meio da racionalização24. Não obstante, ainda podemos ver, na multiplicidade de mitos e lendas que chegaram até nós ou que têm sido registrados nos confins da terra, o esboço de alguns elementos do nosso destino ainda humano. Para ouvir e aproveitar, porém, devemos submeter-nos, de certo modo, à purgação e à entrega. E aí temos parte do nosso problema: como fazê-lo exatamente? “Ou pensais que entraríeis no Jardim da Bem-Aventurança sem passardes pelas provações por que passaram aqueles que vieram antes de vós?”25
O Herói de Mil Faces – Joseph Campbell
24 “O problema não é novo”, escreve o dr. C. G. Jung, “pois em todas as épocas que nos precederam acreditava-se em deuses, de uma ou de outra forma. Apenas um empobrecimento sem precedentes do simbolismo nos poderia dar condições de redescobrir os deuses como fatores psíquicos, isto é, como arquétipos do inconsciente... O céu tornou-se, para nós, o espaço cósmico dos materialistas, e o divino empíreo, uma grata lembrança de coisas que um dia existiram. Mas ‘o coração palpita’ e uma inquietação se instala nas raízes do nosso ser.” “Archetypes and the collective unconscious”, ed. cit., parágrafo 50.
25 Corão, 2:214.
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