A agonia da ultrapassagem das limitações pessoais é a agonia do crescimento espiritual. A arte, a literatura, o mito, o culto, a filosofia e as disciplinas ascéticas são instrumentos destinados a auxiliar o indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento. Enquanto ele cruza limiar após limiar, e conquista dragão após dragão, aumenta a estatura da divindade que ele convoca, em seu desejo mais exaltado, até subsumir todo o cosmo. Por fim, a mente quebra a esfera limitadora do cosmo e alcança uma percepção que transcende todas as experiências da forma – todos os simbolismos, todas as divindades: a percepção do vazio inelutável.
Assim é que, quando Dante terminou a última etapa de sua jornada espiritual, e chegou diante da visão simbólica última do Deus Trino, na Abóbada Celestial, ele teve mais uma iluminação a experimentar, uma iluminação que ultrapassava até mesmo as formas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “Bernardo”, escreve ele, “acenava-me, com um sorriso, para que eu levantasse os olhos: mas eu já me encontrava, por minha própria iniciativa, nesse ato; pois minha vista, depurada, penetrava cada vez mais os raios da Luz Altíssima, que por si mesma existe, verdadeira. A partir daquele instante, minha visão era superior às possibilidades de descrição da voz humana e ao poder de rememoração, tal a magnitude do que me era mostrado.”167
“Ali, nem o olho, nem a fala, nem a mente, alcança: não O conhecemos, nem podemos saber como ensiná-Lo. É Isso diferente de todo o conhecido, e está além do próprio desconhecido.”168
O Herói de Mil Faces – Joseph Campbell
167 “Paraíso”, XXXIII, 49-57.
168 Kena Upanishade, 1:3.
Nenhum comentário:
Postar um comentário