quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Autoconhecimento e Universo

Os gregos contam a história do rei Midas, que teve a sorte de obter de Baco qualquer dádiva que desejasse. Ele pediu que tudo aquilo que tocasse fosse transformado em ouro. Quando seguia seu caminho, ele tocou, à guisa de experiência, um ramo de carvalho, que se transformou imediatamente em ouro; ele tomou de uma pedra, que também virou ouro; uma maçã era uma pepita de ouro em suas mãos. Em êxtase, ele ordenou que se preparasse uma magnífica festa para celebrar o milagre. Mas, quando se sentou e pôs os dedos sobre o assado, este transmutou-se; ao contato dos seus lábios, o vinho tornava-se ouro líquido. E quando sua filhinha, a quem amava sobre todas as coisas na terra, veio consolá-lo em sua miséria, foi transformada, no momento em que abraçou, numa bela estátua de ouro.

A agonia da ultrapassagem das limitações pessoais é a agonia do crescimento espiritual. A arte, a literatura, o mito, o culto, a filosofia e as disciplinas ascéticas são instrumentos destinados a auxiliar o indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento. Enquanto ele cruza limiar após limiar, e conquista dragão após dragão, aumenta a estatura da divindade que ele convoca, em seu desejo mais exaltado, até subsumir todo o cosmo. Por fim, a mente quebra a esfera limitadora do cosmo e alcança uma percepção que transcende todas as experiências da forma – todos os simbolismos, todas as divindades: a percepção do vazio inelutável.

Assim é que, quando Dante terminou a última etapa de sua jornada espiritual, e chegou diante da visão simbólica última do Deus Trino, na Abóbada Celestial, ele teve mais uma iluminação a experimentar, uma iluminação que ultrapassava até mesmo as formas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “Bernardo”, escreve ele, “acenava-me, com um sorriso, para que eu levantasse os olhos: mas eu já me encontrava, por minha própria iniciativa, nesse ato; pois minha vista, depurada, penetrava cada vez mais os raios da Luz Altíssima, que por si mesma existe, verdadeira. A partir daquele instante, minha visão era superior às possibilidades de descrição da voz humana e ao poder de rememoração, tal a magnitude do que me era mostrado.”
167

“Ali, nem o olho, nem a fala, nem a mente, alcança: não O conhecemos, nem podemos saber como ensiná-Lo. É Isso diferente de todo o conhecido, e está além do próprio desconhecido.”
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O Herói de Mil Faces – Joseph Campbell


167 “Paraíso”, XXXIII, 49-57.
168 Kena Upanishade, 1:3.

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