Jônios, eólios, mas sobretudo os aqueus, tangidos pelos invasores, voltaram à Ásia Menor, não mais como conquistadores: eram agora suplicantes. Não formavam, certamente, grupos naturais, compactos e fortes; não eram portadores do fogo sagrado de seus lares, nem os guiavam seus deuses nacionais.
O génos estava definitivamente rompido. Eram tão somente refugiados e indigentes, sem deuses, sem pátria, sem lar. A pouco e pouco, todavia, começaram a fundir-se com seus antigos e esquecidos irmãos de outrora. Multiplicam-se os casamentos. Até mesmo o poder político dividiu-se, muitas vezes, entre os plutocratas senhores da Ásia Menor grega e os imigrados. Bem mais rápido do que era de se esperar, os dinastas da Jônia vangloriavam-se de sua origem continental. Eis aí como se apresenta a situação da Jônia, à época em que nasceu a Ilíada, situação que deveria ter sido outra, cerca de quatro séculos antes. Aportaram a Ásia Menor como imigrantes, mas esta situação era contrabalançada por um grande orgulho: a lembrança do império aqueu, de sua opulência e de suas conquistas. O passado era sua riqueza: viviam em póthos, na doce lembrança da presença de uma ausência. Herdeiros da raça da idade dos heróis, tinham na lembrança que esta terra a que chegavam como suplicantes, seus ancestrais haviam-na pisado como conquistadores. A glória de uma de suas derradeiras façanhas, a destruição de Ílion, mantinha-lhes a coragem, quando forçados a combater para conquistar um lugar ao sol. Seus poetas e aedos, rememorando-lhes este passado alimentavam-lhes o sentimento e o orgulho de serem descendentes de uma idade heroica.
Mitologia Grega vol. I – Junito de Souza Brandão
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