Escrever tornou-se necessário para o aprimoramento da atividade econômica mais ou menos como quem escreve uma lista para ir ao supermercado. Os mais antigos fragmentos egípcios, mesopotâmicos ou as escritas lineares micênica e cretense comprovam isso. Somente quando esta técnica de simbolizar as palavras está bem desenvolvida é que algum destes burocratas antigos decide registrar as vidas dos faraós, ou o poema sobre o rei Gilgamesh, ou as epopeias que havia séculos muitos rapsodos cantavam em uma língua morta e que eram atribuídas a um poeta cego e vagabundo. Estes textos já existiam, mas só na memória dos cantores ou poetas, que eram, até pouco tempo atrás, a mesma pessoa.
A coisa não para por aí, uma língua tão nova como o alemão moderno, por exemplo, foi primeiramente usada por burocratas e funcionários públicos antes de ser imortalizada na pena de Lutero e se tornar uma das maiores línguas literárias do ocidente. Vemos aí, com a história da escrita, que há um abismo entre, de um lado, catalogar a última safra de olivas e, de outro, escrever sobre feitos heróicos. De um lado do abismo há um negócio e do outro um ócio. Hoje, diríamos que de um lado há o trabalho, algo útil e imprescindível, de outro, há só lazer, um hobby, puro entretenimento. A questão é, por incrível que pareça aos olhos do homem moderno, que não foram as listas de compras que ergueram e derrubaram impérios, nem foram os textos dos burocratas que moveram as construções das pirâmides ou das catedrais. Impérios ergueram-se e caíram bem como pirâmides e catedrais quase tocam os céus por causa daquilo que achamos ser só entretenimento, uma forma de descanso e relaxamento, diversão, coisa de criança. É isso mesmo, coisa de criança, é um jogo, ludus, é ócio, não negócio, é o menino a pegar num galho e dizer ser o seu rifle e que com ele defenderá sua mãe e seus irmãos na ausência do pai.
Mas não foi só a escrita que deixou de servir somente a coisas úteis, como listas de compras, e passou a prestar-se a inutilidades como a Ilíada, a Odisseia ou a Bíblia em alemão. Fazer contas também passou a ser praticado por gente que nada ou muito pouco precisava contar para administrar seus bens. Discutir caiu no gosto de gente que não precisava tomar decisões políticas ou militares. Olhar para o céu fascinou até mesmo gente a quem pouco importava as mudanças climáticas ou que direção seguir para chegar à Etiópia. Conhecer os fundamentos da harmonia dos sons interessou gente desafinada e tímida que nunca emitiu, com a voz ou com os dedos, nem sequer duas notas. Medir a área de um círculo obcecou muita gente que nunca dera uma martelada sequer numa pedra para erguer uma casa. E, no fim das contas, foram as ideias de gente assim que chegaram até nós e que determinam o que somos e ensinamos aos jovens, determinando o que eles serão, por mais que hoje nossa expectativa seja de que se tornem capazes de compor bem as listas de compras; raramente esperamos que transcrevam a Odisseia.
Trivium e Quadrivium – A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor
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