São obras de fácil acesso, eram declamadas em curto período de tempo, talvez uma hora, e pouco bastava para declamar toda a Teogonia; é possível alguém pessoa memorizar toda ela. Temos que ver, porém, que não trata-se de texto sagrado; não se trata da religião dos gregos, ou de um texto usado como as Sagradas Escrituras são usadas, não se trata de dogma, ou de algo infalível e imutável. As pessoas tinham a total liberdade para discordar de Hesíodo, ou de achar aquilo uma história para boi dormir.
Não podes, pois, encarar isso como um relato da religião dos gregos, ou de suas crenças. Era mais uma obra de literatura que de fato influenciou a religiosidade das pessoas, e por conseguinte também a visão das coisas sagradas. É só uma fonte a mais que influencia tanto quanto, por exemplo, a leitura de um romance de Dostoiévski influencia um cristão; não é um texto sagrado nem um dogma, nem tampouco deve ser aceito e conhecido por todos que professam a fé cristã, embora ninguém possa negar que, para um cristão, a leitura de Dostoiévski pode fazer com que se cresça em piedade, na compreensão das coisas divinas e também humanas.
A literatura tem esse poder, essa capacidade de aproximar as pessoas do divino. Isso é assim desde sempre, fazer com que as pessoas compreendam mais as coisas de Deus e do mundo; fazer com que elas desenvolvam a sua própria percepção da realidade.
Coleção de 7 Artes Liberais – Gramática – Formação Literária e Guia de Gramática da Língua Portuguesa – Instituto Hugo de São Vitor
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