Piedosa obra faz ao que está preso
Quem as prisões lhe corta, e as más cadeias.
Ó claríssimo Infante, meu Senhor,
Muito há que me conheces; teus segredos
De mim com razão sempre confiaste.
Nunca te descobri as zombarias,
Nunca descobrirei o menor deles.
D’uma parte me tens por secretário,
Mas d’outra me hás de ter por conselheiro.
Cumprirei eu contigo, e co’o que devo:
Então venha tua ira, que eu não quero
Melhor morte, que aquela que de infâmia
Livrar a vida, e a alma de perigo.
Não vês, Senhor, que o Sol, se escurecesse,
Quanto cobre e descobre ficaria
Tão triste e escuro, como agora claro?
Pois tal é o bom príncipe: Sol nosso,
Com cuja luz nos vemos, e seguimos
A justiça, que aos Céus nos vai levando.
Se s’esta em ti perder, onde a acharemos?
Quem a virtude seguirá, quem honra?
Abateres-te assim de príncipe alto
A pensamentos baixos, que s’estranham
Nos homens baixos, parecer-te pode
Grandeza de ti digna, e do que deves
A este estado tão alto, que te espera?
Castro – Antônio Ferreira
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