Moderação, comedimento, ética rigorosa, eis aí como a doutrina apolínea do μηδέν άγαν (medèn ágan), do “nada em demasia”, e do γνώθι σ’αύτόν (gnôthi s’autón), do “conhece-te a ti mesmo”, acabou por se apossar da tragédia e da poesia em geral.
Até
o esquema trágico, o caminhar do ánthropos, do “simples mortal”,
ultrapassando o métron, a sua medida, e tornando-se, por isso mesmo, anér,
“herói”, que, em consequência, acabará, fatalmente, nos braços da Morîa,
do destino cego, é tipicamente uma lição apolínea: “todas as coisas têm a sua
medida...” Vejamos, mais de perto, como Apolo, com seu comedimento, com seu gnôthi
s’autón, se apossou da tragédia e fez do homo dionysiacus uma presa
fácil da Morîa, valendo o esquema trágico para o ánthropos, como
se fora um aviso prévio: não te “dionizes”, não ultrapasses a medida da miséria
mortal, porque se o fizeres, encontrarás os braços de bronze da fatalidade cega...
Os
devotos de Dioniso, após a dança vertiginosa de que se falou, caíam
semidesfalecidos. Nesse estado acreditavam sair de si pelo processo do έκστασις
(ékstasis), “êxtase”. O sair de si implicava um mergulho de Dioniso
em seu adorador através do ένθουσιασμός (enthusiasmós), “entusiasmo”. O homem,
simples mortal, άνθρωπος (ánthropos), em êxtase e entusiasmo,
comungando com a imortalidade, tornava-se άνήρ (anér), isto é, herói, um
varão que ultrapassou o μέτρον (métron), a medida de cada um. Tendo
ultrapassado sua medida mortal, o anér, o herói, transforma-se em ΰποκριτής
(hypokrités), aquele que responde em êxtase e entusiasmo, a saber, o ator.
Em
ultrapassagem do métron pelo hypokrités se configura como ΰβρρις
(hýbris), um descomedimento, uma “démesure”, uma violência, feita a si
próprio e aos deuses imortais, o que desencadeia a νέμεσις (nêmesis), a punição
pela injustiça praticada, o ciúme divino; o hypokrités, o anér
torna-se êmulo dos deuses, o que vai provocar a άτη (áte), a cegueira da
razão; tudo quanto o hypokrités fizer, daqui para diante e terá que
fazê-lo, realiza-lo-á contra si mesmo. Mais um passo e fechar-se-ão sobre ele
as garras da Μοϊρα (Moîra), o destino cego.
No
fundo, a tragédia grega, como encenação religiosa, é o suplício do leito de
Procrusto contra todas as “démesures”.
Esquematizando:
Métron
(medida de cada um)
Ánthropos
(simples mortal) … ultrapassagem (êxtase e entusiasmo) ... Anér = ATOR
↓
hýbris
(descomedimento, violência)
↓
nêmesis
(castigo pela injustiça praticada, ciúme divino)
↓
áte
(cegueira da razão)
↓
Moîra
(destino cego, punição)
Mitologia
Grega Vol. II - Junito de Souza Brandão
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