Infelizmente, e para o escândalo da Besta materialista, não é bom nem seguro acreditar-se completamente a salvo, em seu saco de pele, dos empreendimentos da alma. Evitar o escrutínio das intenções, forçando-se a conhecer do evento moral apenas sua repercussão no sistema vasodilatador, leva a uma decepção muito amarga. O homem pode muito bem se contradizer, mas não pode negar-se completamente. O exame de consciência é um exercício favorável, mesmo para os professores de amoralismo. Ele define nossos remorsos, os nomeia e assim os mantém na alma, como que em isolamento, sob a luz do espírito. Ao reprimi-los sem cessar, tema dar-lhes consistência e peso carnal. Prefere-se esse sofrimento sombrio à necessidade de se envergonhar de si mesmo, mas você introduziu o pecado na espessura de sua carne, e o monstro não morre ali, pois sua natureza é dupla. Ele engordará maravilhosamente com o seu sangue, prosperará como o câncer, tenaz, diligente, permitindo que você viva como quiser, ir e vir, tão saudável na aparência, apenas inquieto. Você irá, assim, ficar cada vez mais secretamente separado dos outros e de si mesmo, alma e corpo desunidos por um divórcio essencial, neste semi-torpor que dissipará de repente o trovão da angústia, a angústia, forma hedionda e corporal do remorso. Você acordará em um desespero que nenhum arrependimento pode redimir pois neste exato momento sua alma está morrendo. É então que um infeliz esmaga com uma bala um cérebro que lhe serve apenas para sofrer.
A Impostura – Georges Bernanos
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