segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Verdade e Orgulho

XXV

Homem algum me moleste, portanto, dizendo: “Moisés não pensou como dizes tu, mas como eu digo”. Pois, se me perguntassem: “Como sabes que Moisés pensou assim o que interpretas dessas palavras?”. Eu não investiria esforços e responderia talvez como respondi acima, ou com mais detalhes, se insistisse. Mas, quando me dizem: “Moisés não quis dizer o que tu dizes, mas o que eu digo”, sem negar que ambas as interpretações podem ser verdadeiras, ó meu Deus, vida dos pobres, em cujo seio não há contradição, derrama um orvalho que me refresque o coração, para que eu seja paciente para suportar esses que a mim falam. Fazem isso não porque estão cheios do Espírito divino e leram no coração de Teu servo sua intenção, mas porque são orgulhosos. Não sabem o pensamento de Moisés, mas amam o próprio, não por ser o verdadeiro, mas por ser o deles. Do contrário, amariam igualmente a opinião verdadeira de outros, como amo o que eles dizem quando falam a verdade, não porque vem deles, mas porque é verdade, da mesma forma que não é deles por ser verdade. Mas, se eles, de fato, a amassem por ser verdade, então seria tanto deles quanto minha. Contudo, contendam dizendo que Moisés não pensou como digo, mas como eles dizem: isso não aceito e não amo. Ainda que assim fosse, sua precipitação não pertence ao conhecimento, mas à audácia, e nada enxergam além de vaidade. Ó Senhor, Teu julgamento é terrível. Tua verdade nem é minha, nem deste ou daquele; a verdade pertence a todos nós, a quem Tu abertamente chamas a participar dela, advertindo-nos severamente a não nos apossarmos dela como algo exclusivo nosso, para não sermos privados dela. Quem quer que tome apenas para si aquilo que Tu propões para gozo de todos e atribui a si o que pertence a todos é retirado desse bem comum para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira. Pois aquele que fala mentira, fala do que é seu.

Ó Deus, Tu és o juiz excelente, a própria Verdade, ouça o que direi a esse que me contradiz. Ouça, pois diante de Ti é que falo, na presença de meus irmãos, que aplicam a Tua Lei legitimamente, cujo fim é a caridade. Pois essas palavras fraternas e de paz digo a eles: “Se ambos vemos que o que dizes é verdadeiro, ou que o que digo é verdadeiro, pergunto: onde o vemos? Não é em ti, certamente, que eu a vejo, nem em mim que a vês. Mas ambos a vemos na Verdade imutável, que está acima de nossas almas”. Se não discordamos acerca da própria Luz de Deus, por que discutir sobre o pensamento do nosso próximo a quem não vemos como a Verdade imutável? Pois, se o próprio Moisés aparecesse a nós e expusesse seu verdadeiro pensamento, nem assim o veríamos, mas acreditaríamos nele. Não nos levantemos com orgulho, pois, um contra o outro acerca do que está escrito. Amemos ao Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, com toda nossa alma, com toda nossa mente, e ao próximo como a nós mesmos. Foram esses dois preceitos da caridade que Moisés quis dizer com aquilo que escreveu em seus livros. Se duvidarmos disso, faríamos de Deus um mentiroso, imaginando contrariedades à mente de Seu servo, distintos daqueles que ele mesmo lhe revelou. Quanto tolice é afirmar que Moisés teve esse pensamento e não aquele, em meio a tantos significados verdadeiros, e com discórdias perniciosas ofender a própria caridade, razão pela qual falou todas aquelas palavras que nos esforçamos para interpretar.


Confissões – Santo Agostinho

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