Canto XXIV
Lá chegado, afã tanto o peito prema,
Que avante um passo dar eu mais não pude;
Sentei-me então na inanição suprema.
"Eia! toda a fraqueza em ti se mude!
Em ócio", disse o Mestre, "ou sobre a pluma
Prêmios ninguém conquista da virtude.
Aquele que a existência assim consuma,
Tal vestígio de si deixa na terra,
Como o fumo no ar e na água a espuma.
Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!
Recobra o esforço que os perigos vence!
Impere alma no corpo em que se encerra!
Que vais subir muito alto a mente pense;
Desse abismo não basta haver saído.
Será teu prol, se a minha voz convence".
Alço-me então, mostrando-me impelido
De alento, que não tinha; e ao Mestre digo:
"Avante! Forte já me sinto e ardido!"
Pela rocha asperíssima prossigo
Mais estreita, inda menos acessível
Que a outra: os passos de Virgílio sigo.
Inferno, A Divina Comédia – Dante Alighieri
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