quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Mestre e Motivação

Canto XXIV


Lá chegado, afã tanto o peito prema,
Que avante um passo dar eu mais não pude;
Sentei-me então na inanição suprema.

"Eia! toda a fraqueza em ti se mude!
Em ócio", disse o Mestre, "ou sobre a pluma
Prêmios ninguém conquista da virtude.

Aquele que a existência assim consuma,
Tal vestígio de si deixa na terra,
Como o fumo no ar e na água a espuma.

Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!
Recobra o esforço que os perigos vence!
Impere alma no corpo em que se encerra!

Que vais subir muito alto a mente pense;
Desse abismo não basta haver saído.
Será teu prol, se a minha voz convence".

Alço-me então, mostrando-me impelido
De alento, que não tinha; e ao Mestre digo:
"Avante! Forte já me sinto e ardido!"

Pela rocha asperíssima prossigo
Mais estreita, inda menos acessível
Que a outra: os passos de Virgílio sigo.


Inferno, A Divina Comédia – Dante Alighieri

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