Canto XX
Nova pena convém dizer em versos
E dar matéria ao meu vinteno canto,
Do cântico onde punem-se os perversos.
Eu era já disposto tanto quanto
Fora preciso para ver o fundo
Da cava, que banhava amargo pranto.
De almas vi turba, pelo val rotundo,
Que taciturna vinha e lacrimosa
Ao passo usado em procissões no mundo.
Mirei mais baixo e cada desditosa
Notei que fora o mento retorcido
Do colo ao começar: cousa espantosa!
Para o dorso era o rosto seu volvido:
Só recuando caminhar podia;
Que em frente olhar estava-lhe tolhido.
Talvez por força já de paralisia
De alguém o corpo ao todo se torcesse;
Não vi: crê-lo difícil me seria.
Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse
Proveitosa a lição! Pensa, atilado,
Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse,
O parecer humano tão mudado,
Que o pranto que dos olhos derivava
Banhava o tergo a cada condenado.
Do rochedo eu a um ângulo chorava
Com tanta dor, que o Mestre de repente
"Insensato és também?", me interrogava.
"Aqui piedade é morte em toda mente:
Quando Deus condenou, quem mais malvado
Do que esse, que ternura por maus sente?
Inferno, A Divina Comédia – Dante Alighieri
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