terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Piedade e Maldade

Canto XX


Nova pena convém dizer em versos
E dar matéria ao meu vinteno canto,
Do cântico onde punem-se os perversos.

Eu era já disposto tanto quanto
Fora preciso para ver o fundo
Da cava, que banhava amargo pranto.

De almas vi turba, pelo val rotundo,
Que taciturna vinha e lacrimosa
Ao passo usado em procissões no mundo.

Mirei mais baixo e cada desditosa
Notei que fora o mento retorcido
Do colo ao começar: cousa espantosa!

Para o dorso era o rosto seu volvido:
Só recuando caminhar podia;
Que em frente olhar estava-lhe tolhido.

Talvez por força já de paralisia
De alguém o corpo ao todo se torcesse;
Não vi: crê-lo difícil me seria.

Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse
Proveitosa a lição! Pensa, atilado,
Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse,

O parecer humano tão mudado,
Que o pranto que dos olhos derivava
Banhava o tergo a cada condenado.

Do rochedo eu a um ângulo chorava
Com tanta dor, que o Mestre de repente
"Insensato és também?", me interrogava.

"Aqui piedade é morte em toda mente:
Quando Deus condenou, quem mais malvado
Do que esse, que ternura por maus sente?


Inferno, A Divina Comédia – Dante Alighieri

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