quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Humildade e Caridade

Canto III

Mas vós que estais aqui dita logrando
Não sentis de outro céu desejo ardente
Por ver mais alto mais amor gozando?"

Sorriu-se a sombra e as outras docemente;
E disse da alegria radiante,
O seu primeiro amor como quem sente:

"Rege o nosso querer, em paz constante,
A caridade, irmão: só desejamos
O que ora temos e não mais avante.

Anelando ir mais alto do que estamos,
Seríamos rebeldes à vontade,
A que aprouve esta estância, que habitamos.

Pois nos cumpre existir na caridade,
Surgir não pode em nós tal pensamento,
Dessa virtude oposto à santidade.

Condição de eternal contentamento
É preceito cumprir do Onipotente:
Um só com ele é logo o nosso intento.

Do reino em cada plaga refulgente
Somos, do reino todo muito ao grado
E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.

Seu preceito a paz nossa se há tomado:
Ele é mar a que tudo precipita,
Que cria, ou faz natura ao seu mandado".

Conheço então que o Paraíso habita
Quem 'stá do céu em qualquer parte, e vejo
Não chover de um só modo a suma dita.

Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,
E de outro resta o apetite vivo,
Um se agradece, expondo-se o desejo.


Dante Alighieri – Paraíso

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