Ora, um garoto romano da minha idade e muito menos esperto do que eu que houvesse se esgueirado para dentro do senado aquele dia teria entendido o que aquelas quatro palavras significam no instante mesmo em que Cícero pronunciasse a última delas, detulerunt. Qual é a diferença entre nós? Ambos, eu e ele, conhecíamos bem o sentido de cada palavra, sabíamos as declinações e sabíamos toda a sintaxe necessária. E ainda assim eu não entendi e ele entendeu. Onde foi que ele me venceu? Ora, simplesmente nisto: eu, seguindo meus professores, comecei procurando o sujeito, e escolhi haec. O garoto romano não sabia se haec era sujeito ou objeto, para ele era apenas haec. Eu sabia que detulert era verbo, e ele também. Eu sabia que omnia concordava com haec, ele apenas suspeitava que omnia estava junto com haec, de algum modo. Eu sabia (!) que indices era o objeto, ele apenas suspeitava que indices era ou objeto ou sujeito, e que era o contrário de haec omnia (não podia ser um aposto), sendo objeto se haec omnia fosse sujeito e sujeito se haec omnia fosse objeto. Então ele ouviu detulerunt, e com esta palavra tudo se encaixou, de modo tão simples como no verso de Milton,
...a lua, cujo orbe o artista pela vítrea lente vê,
a última palavra resolve o suspense momentâneo quanto à relação entre orbe e artista; essa relação seria oposta se em vez de vê tivéssemos agrada.
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