quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Vivência e Experiência

Newton teria descoberto a gravitação se sua atenção ao real não lhe tivesse advertido e preparado para perceber que as maçãs caem como os mundos? As leis da gravidade dos espíritos, as leis sociológicas, filosóficas, morais e artísticas também são aplicáveis a tudo. Um grande pensamento pode nascer a partir de qualquer fato. Em toda contemplação, seja de uma mosca ou de uma nuvem que passa, há uma oportunidade de infinitas reflexões. Qualquer raio de luz pode levar ao Sol; qualquer caminho aberto é um corredor que conduz a Deus.

Ora, poderíamos captar essas riquezas se estivéssemos presentes. Olhando para tudo em espírito de inspiração, veríamos em tudo lições, profecias da verdade ou confirmações, prenúncios e conseqüências. Mas em geral não estamos presentes, ou não prestamos atenção. “Todo mundo olha o que eu olho”, dizia Lamennais a Saint-Malo, “diante de um mar tempestuoso; mas ninguém vê o que eu vejo”.

Crie o hábito de estar presente a esse jogo do universo material e moral. Aprenda a ver; confronte o que se oferece a você com as suas idéias familiares ou secretas. Não veja numa cidade unicamente suas casas, mas a vida humana e a história. Que um museu não lhe apresente quadros, mas escolas de arte e vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento inspirador, dos sentimentos. Que um ateliê não lhe fale somente de ferro e de madeira, mas da condição humana, do trabalho, da economia antiga e da moderna, das relações entre as classes. Que as viagens ensinem-no sobre a humanidade; que as paisagens evoquem aos seus olhos as grandes leis do mundo; que as estrelas lhe falem das durações incomensuráveis; que os seixos da estrada sejam para você o resíduo da formação da Terra; que a visão de uma família desperte em você a visão das gerações, e que uma simples visita ensine-lhe sobre a mais alta concepção do homem. Se não conseguir ver dessa maneira, não se tornará ou não será mais que um espírito banal. Um pensador é um filtro em que a passagem das verdades deixa sua melhor substância.

Aprenda a escutar, e escute sempre, seja quem for. Se é nos mercados, como queria Malherbe, que se aprende a própria língua, é também nos mercados, ou seja, na vida corrente, que se aprende a língua do espírito. Uma multidão de verdades circula nos mais simples discursos. Uma única palavra ouvida com atenção pode ser um oráculo. Um camponês é às vezes muito mais sábio que um filósofo. Todos os homens se unem quando mergulham no fundo de si mesmos; e se alguma impressão profunda, um retorno instintivo ou virtuoso à simplicidade original, afastar as convenções, as paixões que normalmente desviam-nos de nós mesmos ou dos outros, ouvimos sempre um discurso divido quando um homem nos fala.

Em cada homem está todo o homem, e uma profunda iniciação pode nos vir daí. Se você é um romancista, não sente o que pode extrair disso? O maior dos romancistas forma-se na soleira das portas; o menor, na Sorbonne ou nos salões. Apenas, em vez de se misturar, o grande observador preserva-se, vive em si mesmo, eleva-se, e a vida mais ínfima surge-lhe como como um grande espetáculo.

Ora, o que busca o romancista pode servir a todos, pois todos têm necessidade dessa experiência profunda.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

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