Uma forma de personalidade particularmente hostil ao trabalho é essa hipocrisia quase universal que consiste em ostentar uma aparência de saber quando a sinceridade confessaria ignorância. Ocultar sua indigência intelectual à sobra das palavras é o que se critica ao escrevinhador improvisado, ao jornalista copiador e ao deputado ignaro; mas todo escritor com uma consciência reta deve confessar que cede a todo instante, nesse ponto, às sugestões do orgulho. Quer esconder seu segredo; disfarça sua insuficiência; faz uma pose de grande, sentindo-se pequeno; “afirma”, “declara”, “está certo de que...”; no fundo, não sabe nada do assunto; impõe-se sobre o próximo e, vagamente enganado por seu próprio jogo, seduz a si mesmo.
Uma outra tara é buscar no pensamento essa falsa originalidade que há pouco condenamos no estilo. Querer amoldar a verdade a si mesmo é um orgulho insuportável e acaba em tolice. A verdade é essencialmente impessoal. Que ela utilize nossa voz e nosso espírito, e será matizada por eles sem que o busquemos; ela o fará tanto melhor quanto menos pensarmos nisso; mas forçar a verdade a parecer-se conosco é falseá-la, é substituir essa imortal por um profanador e um efêmero.
“Não considere de onde vem a verdade”, dizia São Tomás: também não considere a quem ela dá glória; deseje que o seu leitor em contato com sua obra, também não considere de onde vem a verdade. Esse sublime desinteresse é a marca da grandeza; busca-lo, fazer dele uma lei sempre aceita, se não sempre obedecida, é corrigir o que não pode ser eliminado em nossa própria miséria. Engrandecemo-nos assim com a única verdadeira grandeza. O humilde pedestal tem sua parte de glória quando a verdade resplandece, chama autêntica, no candelabro do espírito.
A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges
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