sexta-feira, 21 de maio de 2021

Preço e Sagrado

As preocupações expressas pelos ambientalistas surgiram sobretudo por oposição ao hábito de ver todo valor em termos instrumentais. As pessoas tratavam a terra e seu entorno como coisas para serem usadas e, quando exauridas, descartadas; e então lavadas numa pia qualquer, como os oceanos ou a atmosfera, que não precisamos limpar. Mas as pias são finitas, nosso lixo se acumula sem parar, e os oceanos e a atmosfera já se cansaram de nós. Diz-se que uma plataforma de lixo plástico duas vezes maior que o Texas vaga pelo Pacífico; gases de efeito estufa acumulam-se na atmosfera, elevando a temperatura do planeta e ameaçando tudo aquilo que conhecemos e de que precisamos. E por toda parte a nossa volta vemos os resíduos de nossa gulodice, como nas palavras de William Empson: “Lento o veneno o sangue inteiro toma:/ É o lixo, o lixo fica e mata”.

Quando os governos tocam no problema, eles o formulam em termos fiscais, considerando os custos econômicos de nossa negligência e os custos econômicos de repará-la. O governo britânico encomendou um relatório a sir Nicholas Stern considerando “os custos econômicos da mudança climática” e das políticas necessárias para corrigi-la. E esse relatório serviu de base para praticamente todas as discussões na arena política desde então, dando a impressão de que a Terra e nosso meio ambiente devem ser vistos em termos puramente instrumentais, e sem considerar nada de seu valor intrínseco. Talvez seja inevitável esse triunfo do raciocínio instrumental que descreve coisas dotadas de valor como coisas que se reduzem a um mero preço. Mas ele é também um dos traços do mundo moderno contra o qual os ambientalistas se rebelam ou deveriam se rebelar. O problema ambiental surge porque tratamos a Terra como objeto e instrumento. E certamente não é irrealista conectar esses dois desenvolvimentos. Caímos no hábito de ver tudo, inclusive a nós mesmos, como uma coisa a ser usada e consumida, e é justo chamar isso de queda. De fato, é nisso que consiste a “queda do homem”. Comer o fruto proibido significa acreditar que cabe a nós definir a distinção entre o bem e o mal. Então reescrevemos a distinção em termos puramente humanos: o bem e o mal tornam-se benefício e custo, de modo que nada é santo, nada é consagrado, nada é resgatado do escambo e da troca. Lidamos com o mundo precificando-o. As coisas que só são valorizadas por seu uso podem ser comparadas, trocadas e vendidas por outras coisas do mesmo tipo. Elas podem ser consumidas, esgotadas e descartadas pela pessoa que mesmo assim reconhece o único valor que elas têm, que é o custo de uma substituição. É isso que hoje fazemos uns com os outros e com a Terra. Contudo, a Terra, assim como nós, é insubstituível.

O senso do sagrado coloca um freio nessa atitude instrumental. Diante de um lugar ou artefato sagrado, recuamos numa postura de respeito. Essa parte do mundo, creio, é inviolável. Eu poderia danificá-la, e talvez eu não seja punido se fizer isso. Mas ela fala a mim, e diz que devo conter minha mão. Assim como o sujeito aparece no rosto humano e coloca diante do assassino e do abusador o “não” absoluto, também um “eu” observador, perscrutador, interrogador aparece no lugar sagrado e nos ordena que o respeitemos.


O Rosto de Deus – Roger Scruton

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