quinta-feira, 20 de maio de 2021

Rosto e Sagrado

O grande quadro de Botticelli nos recorda que o rosto humano deve ser entendido de maneira muito diferente daquela como se entende as partes do corpo de um animal. Os animais não veem rostos, já que não podem ver aquilo que organiza olhos, nariz, boca e testa como um rosto, isto é, o eu que reside nesses traços. Nossa compreensão do mundo como algo iluminado pela liberdade deriva em parte de nossa experiência do rosto. O rosto é, portanto, não apenas um objeto entre objetos; e quando as pessoas nos convidam a percebê-lo assim, à maneira do modelo e da estrela pop, elas só fazem desfigurar a forma humana. Essa desfiguração é algo que testemunhamos em todo lugar à nossa volta e também é experimentada, sobretudo em sua aplicação sexual, como profanação. Para mim, não é por acaso que somos inclinados a falar de profanação quando o assunto é sexo. Só podemos profanar o que é sagrado. E, ao descrever o papel do rosto nas relações interpessoais, dei os primeiros passos para uma teoria do sagrado.


O Rosto de Deus – Roger Scruton






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