Raras são na vida as ocasiões de realizar ações estrondosas. Assim como uma excursão ao Monte Branco é feita de miríades de passos, de esforços, de saltos, de incisões no gelo, também a vida dos maiores sábios é feita de longas séries de pacientes esforços. Agir é, portanto, realizar milhares de pequenas ações. Bossuet, que foi um admirável diretor espiritual, “aos grandes esforções extraordinários a que se chega por grandes arroubos, e de onde se cai numa queda profunda”, preferia “os pequenos sacrifícios que são às vezes os mais mortificantes e os mais extenuantes, os ganhos modestos, mas seguros, os atos fáceis mas repetidos e que se tornam hábitos insensíveis [...]. Basta pouco a cada dia se a cada dia realizamos esse pouco” ¹. Com efeito, o homem corajoso não é aquele que realiza corajosamente todos os atos da vida. É o aluno que, apesar da repugnância, obriga-se a levantar para procurar uma palavra no dicionário, que acaba sua tarefa apesar do desejo de descansar, que termina a leitura de uma página tediosa. É nessas mil ações aparentemente insignificantes que se tempera a vontade. “todas as obras fazem crescer”. Devemos, na falta de grandes esforços, realizar a toda hora os pequenos, excelentemente e com amor. Qui spernit modica paulatim decidet ². A grande regra aqui é escapar sempre, até nas mínimas ações, à vassalagem da preguiça, dos desejos e das influências exteriores. Devemos mesmo buscar as ocasiões de alcançar essas pequenas vitórias. Chamam-lhe quando está trabalhando, e você experimenta um sentimento de revolta: levante-se sem demora, obrigando-se a ir vigorosa e alegremente aonde foi chamado. Antes da aula, um amigo convida-o para passear; faz um belo dia; vá vigorosamente trabalhar! A vitrina daquela livraria atrai-o na hora do trabalho: vá para outro lado da rua e caminhe rapidamente. É por essas “crucifixões” que se habituará a triunfar sobre suas inclinações, a ser ativo em toda parte e sempre... mesmo quando dorme ou passeia, que seja porque escolheu esse repouso. É assim que nos bancos do liceu, estudando, a criança aprende uma ciência mais preciosa que o latim ou as matemáticas que deve saber: a ciência do auto-domínio, de lutar contra a desatenção, contra as dificuldades desanimadoras, contra o tédio das pesquisas no dicionário ou na gramática, contra o desejo de perder o tempo sonhando; e por uma conseqüência consoladora, ocorre que os progressos realizados no estudo estão sempre digam o que disserem, em razão direta com os progressos realizados nessa obra de domínio sobre si mesmo, tanto é verdade que a energia da vontade é ao mesmo tempo a mais preciosa das conquistas e a mais fecunda em boas conseqüências!
¹ Ver o Bossuet de Lanson. [Gustave Lanson, Bossuet, Société Française d’imprimerie et de librarie, Paris, 1890 – NT].
² “O que despreza as coisas pequenas pouco a pouco cairá”. Eclo 19, 1b – NT.
A Educação da Vontade – Jules Payot
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