Essas mesmas bibliotecas não deixam de ter sérios inconvenientes. Com a facilidade de ver o que nossos predecessores pensaram sobre as questões que nos interessam, acabamos perdendo o hábito de pensar por nós mesmos. E como nenhum poder se enfraquece tanto pela falta de exercício como o do esforço pessoal, chega-se logo a substituir sempre e em tudo os esforços da memória aos esforços de investigação pessoal ativa. Quase sempre a capacidade de pensamento pessoal é inversamente proporcional à riqueza de recursos que fornecesse o meio em que se vive. É por esse motivo que os estudantes dotados de muito boa memória são quase sempre inferiores a seus colegas menos bem-dotados sob esse aspecto. Estes últimos, desconfiando de sua capacidade de reter, recorrem a ela o menos possível. Fazem uma escolha escrupulosa dos materiais que a repetição introduzirá na memória; só confiam-lhe o que é essencial, e deixam o esquecimento apagar tudo aquilo que é acidental. E mesmo o essencial, é urgente organizá-lo muito bem. Uma tal memória é como uma tropa de elite composta somente pelos melhores oficiais. Assim, quem não tem acesso às inumeráveis bibliotecas, cerca-se somente dos melhores livros, que lê com cuidado, que medita e analisa, suprindo o que lhe falta pela observação pessoal e por esforços de penetração que constituem um admirável exercício para o espírito.
A Educação da Vontade – Jules Payot
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