Penetrai o leitor crítico. A vida dele é afligida por uma “época” em que os aflitos são figuras públicas; ele não pode escapar da cena que elas dominam; o infortunado, como todos sabemos, pode ser muito importuno. Ainda assim, ele pode esperar. Não é obrigado a fingir que doença é saúde, ou que os homens que sofrem em público não o importunam à dormir debout. Acima de tudo, ele não precisa fingir que a perda de realidade de que eles sofrem tão brilhantemente não é um fingimento que lhes mantém o sofrimento. Ele pode até voltar-se para sua aflição com a “época” para algum lucro, ao estudar a estrutura da consciência que aflige. Ele sabe que na consciência do homem a realidade se torna luminosa a si mesma; e os casos presentes mostram que a realidade não deixa de ser luminosa, quando um homem contrai sua existência. Dentro da falta de distância crítica, o homem que sofre do defeito desenvolve uma nova distância crítica de sua deficiência. Contanto que o leitor não esteja suficientemente familiarizado com o fenômeno, ele pode esperar que esta distância crítica secundária, em algum tempo, se emparelhe com a deficiência primária dela, de tal modo que o defeito existencial se dissolverá na consciência de si mesmo. Um leitor incauto de O Castelo ou O Processo de Kafka, por exemplo, pode aguardar ansioso pelo momento quando o analista soberbo do tormento se transformará naquele que cura. Mas o momento não chega nunca, nem em Kafka, nem em Nietzsche. Este é o ponto em que o leitor crítico que, por definição, não é afligido pela contração de existência se dá conta de que está afligido junto com o autor, qualquer que possa ser a aflição do autor. Se o autor atrasa indefinidamente o momento da verdade em que a opacidade de sua consciência se deveria dissolver em luminosidade, aquele outro momento de verdade virá, quando o leitor sente o empoeiramento da obra. Tão logo se desgaste a magia lançada pela obra, ele se lembrará do dito de Karl Kraus: a perversão é divertida, mas, a longo prazo, tediosa.
Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin
Nenhum comentário:
Postar um comentário