Assim, contra os judeus podemos discutir com o Velho Testamento, ao passo que contra os heréticos podemos discutir com o Novo Testamento. Mas os maometanos e os pagãos não aceitam nem um nem outro. Temos, portanto, de recorrer à razão natural, a que todos os homens são forçados a dar seu assentimento.
A passagem formula sucintamente o problema do debate no século XIII e, juntamente com ele, por implicação, a diferença profunda que caracteriza a situação do debate em nosso próprio tempo. Pois todo debate concernente à verdade de proposições específicas pressupõe um pano de fundo de topoi não questionados, tidos em comum pelos parceiros do debate. Num debate com os judeus, os topoi não questionados são fornecidos pelo Velho Testamento; num debate com os heréticos, pelo Novo Testamento. Mas onde os encontramos no debate com os gentios? Não me parece acidente quando na resposta a esta pergunta Aquino passa da linguagem anterior de Intelecto para a linguagem da Razão, sem maiores explicações sobre a mudança. Lembramos nossa análise de existência: tínhamos de distinguir entre várias propriedades do Intelecto, entre Iluminação, Transcendência, Ideação e Raciocínio. Se Aquino acredita poder confiar no poder da Razão para forçar o assentimento dos gentios, tacitamente supõe que o raciocínio dos gentios operará dentro da mesma estrutura noética de existência dele próprio – uma suposição muito justificada à vista do fato de que os pensadores maometanos foram exatamente os transmissores de Aristóteles para os ocidentais¹. Pois obviamente – ou seja, obviamente para nós – as operações lógicas do Intelecto como Razão chegarão a resultados muito diferentes, se a Razão tiver se desatado da condicio humana. Os topoi não questionados de que Tomás tem em comum com os gentios de seu tempo, a quem ele dirigiu sua argumentação, tão inquestionados que ele nem sequer os formula, mas os toma como dados, são os topoi de existência. Ele pode supor corretamente que seus oponentes estão tão interessados como ele no porquê e como da existência, nas questões da natureza do homem, da natureza divina, da orientação do homem para seu fim, da ordem justa nas ações do homem e da sociedade, e assim por diante.
Estas, entretanto, são precisamente as suposições que já não podemos fazer na situação de debate de nosso tempo. Voltando de novo à lista de Aquino, temos de dizer que não podemos discutir pelo Velho Testamento, nem pelo Novo, nem pela Razão. Nem mesmo pela Razão, porque o argumento racional pressupõe a comunidade de existência verdadeira; somos forçados a um passo adiante até lidar com o oponente (mesmo a palavra debate é difícil de aplicar) no nível da verdade existencial. As especulações da metafísica escolástica e clássica são edifícios de razão erigidos na base experiencial de existência na verdade; são inúteis num encontro com edifícios de razão erigidos numa base experiencial diferente. Entretanto, não podemos ficar fechados nesses edifícios e deixar o mundo passar, pois neste caso seríamos remissos em nosso dever de “debate”. O “debate” tem, portanto, de assumir as formas de (1) uma análise cuidadosa da estrutura noética da existência e (2) uma análise das Segundas Realidades, a respeito tanto de suas elaborações quanto de sua estrutura motivadora de existência na mentira. O “debate” nesta forma dificilmente é uma questão de raciocínio (embora permaneça do Intelecto), mas, ao contrário, da análise da existência que precede as elaborações racionais; é médica no caráter, pois tem de diagnosticar as síndromes de existência mentirosa e, por sua estrutura noética, iniciar, se possível, um processo de cura.
Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin
¹ Tese superada, ver Sylvain Gouguenheim, Aristote au Mont Saint-Michele Les Racines Grecques de l’Europe Chrétienne. Seuil, 2008. (N.T.)
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