segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Mito E Filosofia

Ninguém pode curar a desordem spiritual de uma “era”. Um filósofo não pode fazer mais do que exercitar-se para livrar-se dos cascalhos de ídolos que, sob o nome de uma “era”, ameaça aleijá-lo e enterrá-lo; e pode esperar que o exemplo de seu esforço seja útil a outros que se encontram na mesma situação e experimentam o mesmo desejo de obter a humanidade deles sob Deus. Hegel, entretanto, queria tornar-se não um homem, mas um Grande Homem: o Grande Homem cujo nome marca uma época na história era sua obsessão. Além disso, não queria tornar-se apenas um Grande Homem qualquer na história, precedido e seguido por outros, mas o maior deles todos e esta posição ele só poderia assegurar ao tornar-se o Grande Homem que abole a história, as eras e épocas pela sua invocação da Última Era que doravante terá a sua marca. O Grande Grande Homem na história é o Grande Homem para além da história. Obter poder sobre a história, colocando um fim na história com sua dilaceração e tédio foi a força motora da feitiçaria de Hegel.

É impenetrável o que induziu um filósofo potencial a ir na excitação de tornar-se o Grande Grande Homem. Assim como no caso dos grandes sucessores de Hegel na feitiçaria, Marx e Nietzsche, que queria evocar o Übermensch¹, a doença espiritual de recusar-se a aperceber a realidade, e de fechar a própria existência pela interpretação de uma Segunda Realidade imaginária é um segredo entre o homem e Deus. Não se pode fazer mais do que descrever o fenômeno. No caso de Hegel, os cinco ou seis anos que precederam a publicação de Phänomenologie foram o período crítico em que o projeto mágico se cristalizou. Embora alguém desejasse que a documentação do processo fosse mais completa, o que foi publicado dos manuscritos até agora é suficiente para permitir uma reinterpretação.

O que cristalizou nos anos críticos foi, primeiro de tudo, o simbolismo de Geist (espírito), Gedanke (pensamento), Vorstellung (concepção) e Idee (ideia) – o instrumento para eclipsar a realidade do Mito, da Filosofia e da Revelação. Sua natureza e função tornaram-se aparentes na crítica hegeliana aos mitos de Platão: os mitos têm fascínio e são úteis pedagogicamente, tornam atrativos de ler os diálogos, mas traem a inabilidade de Platão de penetrar certas áreas do Geist pelo Gedanke. “O mito é spempre uma apresentação que introduz imagens sensuais, apelando para a concepção, não para o pensamento; é uma impotência do pensamento que não pode ainda dominar-se. Na apresentação mítica, o pensamento ainda não é livre; o Gestalt sensual é uma poluição do pensamento pois não pode expressar o que o pensamento quer expressar... Frequentemente Platão diz ser difícil expor uma matéria pelo pensamento e ele, portanto, o apresentará por um mito; mais fácil certamente isso é” ².

A passagem soa como se Hegel nunca tivesse dado conta nem mesmo transitoriamente, de que a introdução que Platão faz do mito manifesta não sua falha como pensador, mas sua compreensão crítica da análise filosófica e os limites desta. O filósofo pode esclarecer a estrutura e o processo de consciência; pode estabelecer mais claramente a realidade da consciência e a realidade de que é consciente; mas não pode nem expandir a consciência do homem na realidade em que é um acontecimento, nem contrair a realidade até o acontecimento da consciência. Platão sabe muito bem que seu mito – de Eros, da psique como o sítio da busca que o homem faz do fundamento divino de sua existência, da imortalidade da alma, de sua pré e pós-existência, sua culpa e purificação, do juízo final, da origem demiúrgica do cosmos – simboliza a experiência do Geist, mas ele também sabe que o Geist do homem não é idêntico à realidade em que esse Geist participa conscientemente mediante a experiência. A experiência de participação num cosmos divinamente ordenado estendendo-se para além do homem só pode ser expressa por meio do mito; não pode ser transformada em processos de pensamento dentro da consciência.


Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin


¹ Super-homem. (N.T.)

² Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie [Prefácio da História da Filosofia]

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