sexta-feira, 18 de julho de 2025

Amizade e Adulação

VI

Então vejamos a coisa do início. Dissemos que a amizade nasce, para a maior parte dos homens, da afeição pelos mesmos modos e maneiras, da alegria pelas mesmas práticas, pelos mesmos feitos e pelas mesmas ocupações, e da afinidade de talante e natureza: e é neste sentido que foi dito:

o velho se deleita ouvindo o velho,
as crianças ouvindo outras crianças,
nem nada dá mais gosto ao mulherio
do que com outras mulheres conversar.
É música aos ouvidos do doente a voz de outro doente,
e ao desgraçado a fala dos colegas na desgraça.

Vendo como da semelhança nos gostos e afeições surge naturalmente a familiaridade e o amor, o adulador usa-se desse método antes de qualquer outro para insinuar-se na confiança dos homens e capturá-la, como alguém que, imitando, numa pastagem, as práticas, os interesses, os desejos e o modo de viver de um animal, vai pé ante pé se achegando e acostando ao bicho até que ele dê a oportunidade e se ofereça manso e habituado ao toque humano. Assim, de um lado, o adulador reprova as práticas, as vidas e os homens que perceba desagradar o adulado; de outro, elogia tudo o que lhe agrade, não de maneira razoável e comedida, mas enaltecendo com aparente assombro e admiração, e ainda por cima assegurando que todos seus gostos e aversões nascem mais do juízo que das paixões.


Como Distinguir os Aduladores dos Amigos - Plutarco

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