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Se, porém,
toda cotovia vem com crista,
como diz Simônides, e também todo homem por natureza traz no peito a contenção, a emulação e a inveja,
companheira das cabeças ocas,
como fala Píndaro, tiraria um proveito nada modesto quem, tomando os inimigos, por assim dizer, como esgoto, despejasse neles todas essas más inclinações,¹ de modo a purgar-se delas e desviá-las do caminho dos companheiros e familiares.² E isto, ao que parece, é o que compreendeu aquele político de nome Demos, quando, encontrando-se do lado vencedor de uma insurreição em Quios, aconselhou seus correligionários que não banissem todos os integrantes da facção rival, mas deixassem alguns, "de modo", explicou ele, "que não passemos a nos voltar contra os amigos uma vez livres de todos os inimigos". Deste modo, essas nossas inclinações, despendidas por inteiro contra os nossos inimigos, incomodarão menos os nossos amigos. Não convém, afinal, que "o oleiro inveje o oleiro ou que o "o bardo do bardo tenha inveja", como canta Hesíodo, nem que haja emulação de espécie alguma com o vizinho, o primo ou o irmão que tenha "avançado depressa na riqueza" e chegado à prosperidade. E se não há outro expediente contra a rivalidade, a inveja e a contenção, acostuma-te a sentir o aguilhão toda vez que souberes da felicidade dos teus inimigos, e toma isto como estímulo para apontar e aguçar o teu espirito contencioso. Assim como os jardineiros habilidosos sabem que faz bem às rosas e violetas plantar à volta delas alho e cebola (já que sugam das flores tudo o que contenham de acre e fétido), do mesmo modo o inimigo, atraindo e absorvendo toda a tua malevolência e calúnia, devolve-te mais benévolo aos amigos prósperos. Por isso, na hora de disputar com os inimigos pela glória, pela autoridade ou pelo ganho justo, não apenas sintamos o aguilhão caso levem vantagem sobre nós em alguma coisa, como também observemos todos os meios pelos quais alcançaram essa vantagem, e tentemos superá-los no esmero, no esforço, na temperança e no exame de si mesmos. Nesse sentido dizia Temístocles que a vitória de Milcíades em Maratona não o deixava dormir. Quem, afinal, se crê superado pela fortuna do inimigo quer nos cargos de poder, quer na defesa de seus clientes, quer na gestão do Estado ou na relação com os amigos e superiores, caso se rebaixe, da ação e da emulação, à calúnia e ao acabrunhamento, toda essa inveja que o estimula a combater tornar-se-á inútil e ineficiente. Já aquele que não está cego para o que odeia, mas enxerga como um observador justo e imparcial a vida, os costumes, os ditos e as obras do outro, perceberá que a maior parte do que emula nos inimigos foi conquistado por meio diligência, da prudência e da honestidade na conduta; e, querendo chegar aos mesmos bens, cultivará, por um lado, o amor à honra e à beleza, e amputará, por outro, a preguiça e o desleixo.
¹ Cf. Xenofonte, Memorabilia, I, 4. 6.
² Cf Moralia, 813A.
Como Tirar Proveito dos Inimigos - Plutarco
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