IV
Acrescenta a isto o dito mui filosófico e civil de Diógenes: "'Como hei de castigar meu inimigo? Tornando-me eu mesmo belo e bom".¹ Afligem-se os homens reparando como são celebrados os cavalos dos inimigos e elogiados os seus cães; murmuram, quer vejam seus campos bem lavrados, quer avistem seus jardins em plena flor. O que pensas, portanto, que lhes há de acometer se te mostrares um homem justo, sensato, prestativo, honrado nas palavras, puro nas ações, temperante na conduta,
lavrando os sulcos profundos da mente
fecundos em conselhos fidedignos?
"Os derrotados", diz Píndaro, "levam a lingua agrilhoada num silêncio sepulcral". Essas palavras não são verdadeiras em qualquer caso nem se aplicam a todos os homens, mas apenas aos que se vêem derrotados pela diligência, pela retidão, pela magnanimidade, pela benevolência e pela bondade dos inimigos; são estas as coisas que, como diz Demóstenes, "embaraçam a lingua, tapam a boca, comprimem-na e fazem calar".
Sê diferente dos maus: nada o impede.²
Se queres atormentar quem te odeia, não o xingues de pederasta, de efeminado, de licencioso, de ladrão de oferendas ou de sovina: antes sê tu mesmo viril, casto, verdadeiro, benigno e justo com os que cruzarem teu caminho. Se chegares, todavia, a insultar alguém, cuida que estejas o mais afastado o possível dos insultos que lhe atiras. Mergulha na tua alma e sonda o que ainda tens de podre nela, para que não aconteça daí que algum vicio te entoe de dentro aquele canto do poeta trágico:
És médico dos outros, mas o teu corpo de úlceras estala.
Se o chamares de iletrado, aguça em ti mesmo o amor à instrução e ao esmero; se o chamares de covarde, desperta e reaviva ao máximo tua coragem e virilidade; se o chamares de libertino e destemperado, apaga da tua alma o traço ainda oculto de amor à luxúria. Nada, afinal, é mais vergonhoso que a difamação que se volta contra seu autor, nem nada mais penoso; e tanto a luz parece ofender mais as vistas fracas se refletida, quanto as pechas quando devolvidas pela verdade mesma aos que as impõem nos outros. Como faz com o nevoeiro o vento nordeste, assim a vida indecorosa arrasta sobre si mesma seus insultos.
¹ Cf. Moralia, 21E.
² Euripides, Orestes, 251.
Como Tirar Proveito dos Inimigos - Plutarco
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