1 "Permite-me, pois, que te faça algumas perguntas para provar o teu espirito e saber qual é o tratamento que te devo aplicar?".
2 Respondi: "Pergunta-me tudo o que quiseres! Estou dis posto a responder a qualquer pergunta".
3 E ela perguntou: "Tu pensas que o nosso mundo é movido pelas forças cegas da Fortuna ou crês que é dirigido por uma Razão?".
4 Respondi: "A mim seria impossível imaginar que um conjunto tão bem ordenado pudesse depender das forças cegas do acaso; pelo contrário, estou persuadido de que é Deus que dirige a obra que Ele mesmo criou, e jamais poderei pensar de outro modo".
5 "Sim, expressaste isso muito bem nos teus versos. Deploraste a solidão dos homens que se declaram independentes da vontade divina, e não hesitaste em declarar que todo o resto da criação é governado por um poder inteligente.
6 "Ora! Fico extremamente surpreendida que estejas doente da alma apresentando pensamentos assim tão elevados. Contudo, sondemos essa alma mais a fundo: tenho a impressão de que te falta algo.
7 "Diga-me: se não duvidas de que Deus é quem governa o mundo, tu sabes quais são os meios que ele empregue para governá-lo?".
8 Então eu disse: "Compreendo apenas o sentido da tua pergunta, mas não é tão fácil assim responder ao que desejas saber".
9 Prosseguiu ela: Eu já havia observado que havia um vazio em ti; foi por aí que, como por uma pequena fenda aberta numa muralha, penetrou em tua alma a violenta perturbação das paixões.
10 "Dize: porventura te esqueceste de qual é o fim de todas as coisas e o objetivo para o qual se dirigem todos os esforços da natureza inteira?". A essa pergunta, respondi "Aprendi tudo isso, mas agora minha memória está muito afetada pela dor".
11 E ela: "E tu sabes qual é o princípio do qual provêm todas as Coisas?", "Sim. É Deus', respondi, "isso já sei, como lhe disse ainda há pouco".
12 Ela retorquiu: "Como é possível que conheças o princípio de todas as coisas e ignores o seu fim?
13 "Assim são as paixões: embora sejam capazes de comover o homem, não conseguem arrancá-lo totalmente de si mesmo.
14 "Contudo, eu gostaria que me respondesses a outra pergunta: tu te lembras de que és um homem?". Respondi "Como não me lembraria?". E ela perguntou:
15 "Poderias explicar o que é um homem?". E eu disse-lhe "Sei que pretendes ver se sei que o homem é um anima racional e mortal. Sei muito bem o que sou e compreendo que não sou outra coisa".
16 Disse ela: "Tens certeza de não ser nenhuma outra coisa?". "Tenho certeza", respondi.
17 Então ela disse: "Vejo agora que existe outra causa para o teu mal. E ela é, sem dúvida, a causa mais influente: tu não sabes quem tu és. Acabo de encontrar a origem de todo o teu mal e também o meio para te devolver a saúde.
18 "Sim, o que te cegou foi o esquecimento de si mesmo: por isso te queixaste do teu exílio e do despojo dos teus bens.
19 "Por ignorar o fim de todas as coisas, tu crês que os homens perversos são poderosos e felizes. Por teres te esquecido das leis invisíveis que regem o universo, julgas que a Fortuna e seus caprichos caminham livremente no mundo. Bem, essas são causas que, além de enfermidade, poderiam provocar até a morte... Portanto, demos graças ao Autor da vida porque a natureza não te abandonou completamente.
20 "Temos aqui ao nosso alcance a centelha que acenderá a tua salvação: é a noção correta que tens do mundo e de quem o governa, tu compreendes que o universo não está sujeito às forças cegas da Fortuna, mas respeita uma ordem divina. Então, não é preciso temer mais nada: essa pequena centelha se converterá numa chama tão poderosa que te devolverá o calor da vida.
20 "Temos aqui ao nosso alcance a centelha que acenderá a tua salvação: é a noção correta que tens do mundo e de quem o governa, tu compreendes que o universo não está sujeito às forças cegas da Fortuna, mas respeita uma ordem divina. Então, não é preciso temer mais nada: essa pequena centelha se converterá numa chama tão poderosa que te devolverá o calor da vida.
21 "Entretanto, ainda não está no tempo de aplicarmos os remédios mais fortes, pois bem sabemos que a alma humana, que em outras condições estaria completamente esclarecida, quando se afasta da verdade se vê obscurecida pela nuvens das paixões que perturbam a sua inteligência; por isso, primeiro tratarei de apaziguar a tua alma com os sedativos mais suaves; mais tarde, quando as nuvens do engano já viverem sido dissipadas, tu poderás encontrar novamente o esplendor da verdadeira luz.
A Consolação da Filosofia - Boécio
A Consolação da Filosofia - Boécio
Nenhum comentário:
Postar um comentário