1 Disse a Filosofia: "Tu não vês. pois, a imundície em que se revolve a maldade e a luz com que resplandece a virtude? Isso fará com que tu compreendas que ao bem sempre chega o seu prêmio, assim como o castigo sempre chega para o vício.
2 "Pois é racionalmente certo considerarmos que a recompensa de uma ação é o próprio objeto que a motivou: como a coroa conferida ao corredor que chega ao primeiro lugar numa competição de velocidade.
3 "E como já ficou demonstrado que a felicidade é a mesma coisa que o bem, o qual, por sua vez, é o verdadeiro objetivo de todos os atos praticados no mundo, é inevitável que consideremos o bem como a recompensa comum a todos os atos humanos.
4 "Porém, o bem é inseparável das pessoas boas, pois não poderíamos chamar de 'bom' a alguém que carecesse do bem; de modo que uma conduta virtuosa sempre alcança a recompensa que merece.
5 "Os homens maus podem ficar irritados o quanto o desejarem, isso não afeta em nada a recompensa dos bons, porque a maldade alheia não tem o poder de diminuir a glória do homem honrado.
6 "Se as honrarias externas fossem a fonte de sua glória, é óbvio que elas poderiam ser facilmente roubadas por qualquer pessoa - até mesmo por quem as tenha conferido; mas quando a recompensa de um homem é a sua própria virtude (algo que está dentro dele), ele só pode perdê-la se acaso deixar de ser virtuoso.
7 "Por fim, se uma recompensa é buscada por ser considerada um bem, ninguém pode pensar que um homem bom está desprovido de sua recompensa.
8 "Que recompensa é essa? Trata-se da mais bela e grandiosa dentre todas: lembra-te daquele importantíssimo corolário que demonstrei há pouco, e raciocina a partir dele.
9 "Se a felicidade é o próprio bem, está claro que os homens bons são felizes pelo mero fato de serem bons.
[...]
A Consolação da Filosofia - Boécio
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