segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

História e Manipulação

É por isso que hoje em dia há uma ênfase tão grande do ensino escolar na história do tráfico de escravos pelo Atlântico e do Holocausto. Não pretendo, é claro, negar a imensa importância desses assuntos; porém, seu uso para sentimentalizar o modo de ver dos alunos fica bastante evidente a partir do fato de que a eles praticamente não se ensina nada mais em história, e os povos exterminados no Holocausto podem, de maneira razoável, ser apresentados como nada mais do que vítimas de opressão, assim permitindo que o mundo seja elegantemente repartido em bem e mal.

De novo, não quero sugerir que não exista distinção entre bem e mal e nada que distinga o assassino e sua vítima. Contudo, insinuar a mentes jovens que a história humana (e, por extensão, a vida humana inteira) tem sido e não é nada mais do que isto. Um conflito entre vítimas e perpetradores, entre oprimidos e opressores, entre bem e mal, é fazer com que seja improvável que elas desenvolvam aquele senso de proporções sem o qual (como afirmei antes) a informação não passa de uma forma superior de ignorância.

Já mencionei o caso da menina que estava estudando o genocídio de Ruanda e suas aulas de história, com ajuda de um filme de Hollywood a respeito, mas esse não é de jeito nenhum um caso isolado. Para muitas crianças nas escolas, os estudos do genocídio parecem ter tomado o lugar de todo e qualquer outro aspecto da história.

Mal chega a ser necessário dizer que o genocídio é um assunto para uma reflexão quase infinita. O que, por exemplo, devemos pensar do papel motriz da elite com diploma universitário na preparação e na promoção de genocídio? O que isso nos diz a respeito da relação entre educação, cultura e moralidade? E a responsabilidade de forças externas que cruzam os braços e deixam de intervir, ou que até nega que o genocídio esteja acontecendo? Num nível mais profundo, o que a participação de pessoas comuns – às vezes alegremente; em outras por coação – no massacre de seus vizinhos e amigos de outrora, e na apropriação de seus bens, nos diz sobre a natureza humana? Em que medida a coação e o medo atenuam as ações mais vis? Qual a relação entre a explicação histórica dos acontecimentos e sua avaliação moral? Como a responsabilidade individual e a coletiva se relacionam entre si?

Essas questões não são fáceis de responder. Mas é óbvio que a única lição que uma mente completamente não formada pode tirar do estudo – se é que se pode chamar isso de estudo – do genocídio, isolado de quase todos os demais conhecimentos, é do tipo sentimental “quatro pernas bom, duas pernas mau” (como na obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell), de que o mundo é composto de gente boa e de gente má; e como a maioria dos que saem da escola nunca mais estudarão história ou pensarão a seu respeito, esse será seu pressuposto subjacente a respeito de todas as demais questões públicas, se não para sempre, ao menos por muito tempo, suposição essa que os deixará suscetíveis ao canto da sereia de diversos demagogos que afirmam pureza de motivos e que manipulam impiedosamente os corações para obter o poder e retê-los. E o pupilo vem a achar que, por condenar aquilo que é obviamente errado, a saber, o assassinato de vastas quantidades de gente, está sendo virtuoso. A adesão pública ao clichê moral torna-se a marca de um bom homem ou de uma boa mulher.


Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple

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