O pobre menino rico (“sofrendo de fartura”, diria o mordomo Grilo, de A Cidade e as Serras) não teve quem lhe ensinasse o motivo para a distinção básica entre alta e baixa literatura, e levou para a vida a idéia de que mesmo considerar a possibilidade de fazer essa distinção denotaria uma personalidade tacanha, azeda, inimiga das liberdades do espírito. Mas a diferença existe, e é importante conhece-la inclusive para podermos ignorá-la se nos convier.
O motivo para a distinção é muito simples: a 2ª lei da termodinâmica, inviolável até virem ordens de cima, nos diz que todos os sistemas caminham para a desintegração. O universo é um grande brinquedo ficando lentamente sem corda, nós vamos morrer, em 300 mil anos a Mona Lisa será pó etc. Essa é a constatação fundamental a partir da qual tudo o mais deriva – nossa história de sobrevivência, nossos avanços materiais e esforços em busca de sentido. Diante dessa situação duas reações são possíveis: tentar esquecer nossa situação ou se esforçar para lembrar. O que chamamos (sempre com algum desconforto) de “alta literatura” nos faz lembrar. A baixa literatura ou literatura de entretenimento, nos faz esquecer. Quando nos referimos a alguma experiência estética como escapista, é exatamente isso que queremos dizer: estamos escapando por algum tempo da gravidade do mundo real, onde estamos presos ao tempo e ao espaço, à mercê das implacáveis leis da física e dos dilemas dolorosos que pedem a intervenção da nossa consciência. A etimologia, como a hierarquia, é divina: diversão vem de divertere, “afastar-se, desviar-se”.
Só a perfeita consciência de que estamos vivendo nos escombros de um interregno me permite escrever a próxima frase sem implodir de vergonha ao apontar o óbvio: a diversão só faz sentido enquanto diversão, ou seja, desvio. Sem o pano de fundo de algo que não seja diversão, o tédio (que já se chamou “existencialismo” e hoje se chama “depressão”) se instala. Uma vez que isso acontece, a morte por asfixia auto-erótica vira só uma questão de tempo.
Não Tenhais Medo: Como Salvar Sua Próxima Ceia De Natal, O Brasil E Talvez Até Sua Alma - Elton Mesquita
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