terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Sentimentalismo e Demagogia

A morte da princesa serviu muito bem ao Sr. Blair e ele aproveitou a oportunidade com habilidoso entusiasmo. Ela tinha a combinação exata de glamour e banalidade, necessária para o novo exercício do elitismo populista, sem qualquer inteligência ou gosto refinado que pudessem ser ameaçadores. Sob a capa da similaridade cultural com as massas e do sentimento democrático, a nova elite vive ema vida tão distante da vida da grande maioria das pessoas do que a vida da aristocracia jamais esteve; na verdade, mais distante, na medida em que a aristocracia tinha de lidar com pessoas comuns em suas propriedades. Não foi por coincidência que o Sr. Blair foi ao mesmo tempo o mais populista e mais distante e inacessível dos primeiros ministros modernos.

O sentimentalismo, tanto espontâneo quanto aquele gerado pela atenção excessiva da mídia, que foi necessário para tornar a morte a princesa num acontecimento de tão grande magnitude, serviu, portanto, a um propósito político, propósito esse que era intrinsecamente desonesto, de modo paralelo à desonestidade que está por trás de boa parte do próprio sentimentalismo.

Um elitista populista como o Sr. Blair não pode admitir em público, e talvez nem para si mesmo, que deseja acima de tudo viver no puro luxo, de modo tão diferente quanto possível das pessoas comuns, entre ricos e famosos, de preferência sendo ele mesmo rico e famoso. Isso significa que ele tem de dar à sua ambição um verniz de propósito social e, ao fazê-lo, nega sua essência mesma, seu fons et origo¹. Uma retórica sobreaquecida, contorcionismos intelectuais e muitas formas de desonestidade são resultado inevitável.

O sentimentalismo de massas é um brinquedo nas mãos dos elitistas demóticos, que são uma elite apenas em sua disposição superior de recorrer às negras artes da manipulação das disputas burocráticas.


Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple



¹ "fonte e origem"

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