quarta-feira, 15 de junho de 2022

Afeição e Afetação

CXXV – UMA COMPARAÇÃO¹

Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor, não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso, e até mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera defunto aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito, ou quando menos, igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela causa apontada em Camões; não senhor, falta-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se as têm, são enxugadas atrás da porta, para que as caras apareçam limpas e serenas; os discursos são antes de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.

¹ Uma comparação: O narrador compara a sua história, no momento do enterro de Escobar, com a da Ilíada, de Homero, no episódio em que Príamo, o último rei de Tróia, chora ao ser obrigado a beijar a mão de Aquiles, guerreiro grego que matou seu filho, o troiano Heitor. Acontece que, ao contrário do mundo épico, em que os conflitos se dão às claras o mundo narrado em Dom Casmurro é camuflado, e os conflitos são recobertos pelas conveniências sociais. Esta é, segundo o narrador, a razão pela qual não existem mais Homeros como antigamente, e não a razão apontada por Camões n’Os Lusíadas (Canto V, estrofes 97-98): segundo ele, os portugueses não sabiam valorizar a cultura e as letras (“Por isso, e não por falta de natura, / Não há também Vergílios nem Homeros”). (N.E.)


Dom Casmurro – Machado de Assis

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