A digressão foi deliberada. Fujo da questão e me escondo; dissimulo, finjo sabedoria e erudição. É tudo um grande teatro e uma grande conveniência. Em verdade não quero exibir minha vergonha, tenho noção do coitado que sou, da miséria em que me encerro. Contar a minha história confirmará no leitor a certeza de minha estupidez. Não passo de uma Cassandra inglória sem Virgílio para eternizar. Vaticinei tragédias durante anos, bradei aos céus como um profeta bíblico, mas cá estou, mendigando pão, vítima do mesmíssimo naufrágio de que tantas vezes alertei. De que adiantou? Qual foi o proveito? Realmente acreditava em minhas palavras, considerava-me investido com missão salvífica? Se sim, então, por que demônios não preparei a arca? Por que deixei-me soçobrar? A resposta é simples e terrível: sou um farsante; e falo demasiado de mim. Eis um exemplo simples: digo-me exilado, como se a palavra me adornasse de tons heróicos, conferisse algum protagonismo. Mas é mentira. Sou tão refugiado quanto o ignorante que ronca na barraca aqui ao meu lado e pica-me o orgulho compartilhar a sorte do vulgar dos homens.
Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana
Nenhum comentário:
Postar um comentário