quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Argumentos e Irracionalidade

Era meu costume: tentava persuadi-lo pela repetição enfática, mas minhas palavras tinham o poder de calcificar ainda mais a sua resistência. Meu irmão era um daqueles homens fragmentados tão comuns hoje em dia, um ateísta professo que uma vez por semana praticava santeria. Em sua cabeça desorganizada se acomodavam as noções mais contraditórias sem que ele jamais se desse conta de nenhuma incompatibilidade. O seu domínio da linguagem era impreciso e, por isso, quanto mais ele lia mais deformava a sua personalidade. Todo aquele desacordo interno, quando conversávamos, deixava-me furioso. Não sabia lidar com aquilo, sentia-me trapaceado. Aquela sua irracionalidade, assim eu o via, desrespeitava as regras do jogo. Brigávamos e brigávamos sem nunca mudar as convicções iniciais. Discutíamos feito loucos para ao final continuarmos fixos na mesma posição, como numa guerra de trincheiras. Era tudo inútil. Hoje, em retrospectiva, vejo o absurdo e o ridículo da situação. Eu queria porque queria convencê-lo de que eu estava certo e ele estava errado. Não havia um pingo de sabedoria em mim.


Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana

Nenhum comentário:

Postar um comentário