Ora, o resultado de uma primeira infância marcada pela privação afetiva, seguida de anos instrucionais focados em destruir no jovem qualquer amor ao conhecimento e qualquer princípio de intuição criativa - somos nós.
Nós que, nesta segunda década do novo século, estamos já na vanguarda das demandas de trabalho: presentemente nos compete educar os pequenos e amparar os idosos, gerar renda para nossas famílias, prestar serviços à sociedade e abastecê-la com bens materiais e intelectuais.
Nós que, curiosamente, no entanto, comandamos hoje uma sociedade em que se proliferam, de maneira quase simétrica, dois tipos de empreendimentos: o pet shop e a "casa de repouso" para idosos - empresas que lotam as avenidas de todas as nossas cidades, grandes e pequenas, e que de quadra em quadra nos oferecem seus slogans sob os quais são feitas sempre as mesmas ofertas: "Deixe conosco esse outro que te atrapalha. Não se preocupe tanto. Vá viver sua vida sem aborrecimentos nem incômodos. Compre aqui todos os apetrechos necessários para que você possa vivenciar, através de um animal de estimação, um simulacro do afeto humano".
Incapazes de cuidar, porque mortalmente apavorados diante da ideia de amar - já que o amor é exigente, trabalhoso, dolorido, afeito a sacrifícios... -, estamos hoje na vanguarda da vida adulta e nos rebelamos. Não queremos filhos; achamos desumano ter de trabalhar tanto por um não eu, um estranho, um outro... Filhos - trabalho e desperdício! Temos nossos próprios anelos mais profundos. Não raro nossos pais seguem pagando nossas contas.
Imaturos, egoístas, materialistas e frágeis. Todos temos esse espantalho de adultinho moderno dentro de nós - e urge combatê-lo.
Fantasmas e afetos: o problema da educação infantil - Lorena Miranda Cutlak
A Formação do Imaginário
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