A sessão de anatomia desenrola-se numa arquitetura teatral circular inspirada no modelo vitruviano [de Vitruvius, o grande arquiteto]. Essa associação da ciência e do teatro, na aurora da modernidade, é carregada de significação. A anatomia tem valor de modelo para a ciência experimental nascente assim como o teatro tem, ao mesmo tempo, para as artes do visível. A aula de anatomia é aquele espetáculo científico no qual a máquina do corpo é pacientemente desmontada peça por peça. Nas gravuras do anfiteatro de Leiden, o espectador é atingido em primeiro lugar por aqueles esqueletos de homens e de animais.
Há uma mesa no centro, onde se opera a dissecção do cadáver, em volta da qual fica a platéia e, em cima, a galeria de esqueletos de homens e animais, cada um com uma bandeirinha que lembra o tema da precariedade da vida: Vita brevis, "a vida é breve"; Pulvis et umbra sumus, "somos pó e sombra".
Estamos realmente na presença de um teatro da vaidade, um teatro da morte. É bem a ciência moderna que aí se afirma. O esqueleto, e mais genericamente o cadáver, permanecem ainda um símbolo; mas ele é já, antes de tudo, um objeto de estudo, de análise e classificação. A ciência não objetiva assim o corpo humano senão fazendo abstração do seu estatuto simbólico.
... que é o mesmo que dizer: a ciência destrói o sentido simbólico do corpo humano na medida em que o reduz a um aglomerado de pedaços que se colam uns aos outros mecanicamente. E depois, para tentar recuperar essa unidade - que só pode ser captada pela experiência do fluxo interior e da percepção real -, terá de inventar teorias como fluxo vital", "energia vital", "vitalismo" etc.

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