Neste esquema de coisas, um rei é apenas um homem, e uma rainha, uma mulher; uma mulher é apenas um animal, e não é um animal da mais alta ordem. Toda homenagem prestada ao seu sexo em geral, por si só e sem distinção, deve ser considerada como romance e loucura. Regicídio, parricídio e sacrilégio são meras ficções da superstição, corrompendo a jurisprudência ao destruir a sua simplicidade. O assassinato de um rei, ou de uma rainha, ou de um bispo, ou de um pai são apenas homicídios comuns; e se as pessoas por acaso ou de alguma forma ganharem com isso, tornam-nos uma espécie de homicídio muito mais perdoável, e sobre a qual não faremos um escrutínio muito severo.
No esquema desta filosofia bárbara, que é a prole de corações frios e entendimentos turvos, tão vazios de uma sólida sabedoria quanto destituídos de todo bom gosto e elegância, as leis devem ser garantidas apenas pelos seus próprios terrores e pelo interesse de cada indivíduo a partir de suas próprias especulações privadas ou na medida conveniente aos seus próprios interesses privados. Nos bosques de sua academia, onde quer que se olhe, não se vê nada além de cadafalsos. Não sobrou nada que possa despertar o afeto da comunidade. Com base nos princípios dessa filosofia mecânica, nossas instituições nunca podem ser encarnadas, se me permite a expressão, em pessoas, de modo a criar em nós amor, veneração, admiração ou ligação. Mas esse tipo de razão que expulsa as afeições é incapaz de preencher seu lugar. Essas afeições públicas, combinadas com boas maneiras, são necessárias às vezes como corretivos, e sempre como auxiliares da lei. O preceito dado por um homem sábio, que também era um grande crítico, para a construção de poemas é igualmente verdadeiro quanto aos Estados: - Non satis est pulchra esse poemata, dulcia sunto*. Deveria haver um sistema de costumes em cada nação que pudesse ser apreciado por uma mente bem informada. Para nos fazer amar nosso país, nosso país deve ser amável.
* “Não basta aos poemas ser belos; eles também devem ser doces”. Horácio, Ars Poetica, 99.
Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke
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