A sociedade é de fato um contrato. Contratos secundários sobre objetos de interesse meramente ocasional podem ser dissolvidos à vontade – mas o Estado não deve ser nivelado a um acordo de parceria em um negócio de pimenta e café, chita, ou tabaco, ou algum outro de igual teor, constituído para um interesse temporário pequeno, e dissolvido pelo desejo das partes. Deve ser visto com outra reverência, porque não é uma parceria de coisas pertinente apenas à existência animal bruta de caráter temporário e perecível. É uma parceria de todas as ciências; uma parceria de todas as artes; uma parceria de todas as virtudes e de toda a perfeição. Como as finalidades de tal parceria não podem ser obtidas em muitas gerações, torna-se uma parceria não só entre aqueles que estão vivos, mas entre aqueles que estão vivos, aqueles que estão mortos, e aqueles que estão por nascer. Cada contrato de cada Estado em particular é apenas uma cláusula no grande contrato primordial da sociedade eterna, ligando as naturezas mais baixas às mais altas, conectando o mundo visível e invisível, de acordo com um pacto fixo sancionado pelo juramento inviolável que mantém todas as naturezas físicas e morais, cada uma em seu respectivo lugar. Esta lei não está sujeita à vontade daqueles que, por uma obrigação que os ultrapassa e lhes é infinitamente superior, são obrigados a submeter sua vontade a essa lei. As corporações municipais desse reino universal não estão moralmente livres a seu bel-prazer e às suas especulações de uma melhoria contingente, para separar e dilacerar inteiramente os liames das comunidades a elas subordinadas e dissolvê-las em um caos anti-social, incivilizado e desconexo de princípios elementares. É somente uma necessidade primeira e suprema, uma necessidade que não é escolhida, mas que escolhe, uma necessidade fundamental para deliberação, que não admite discussão e não precisa de evidência, a única que pode justificar o recurso à anarquia. Esta necessidade não é exceção à regra, porque esta necessidade em si é uma parte, também, daquela disposição moral e física das coisas a que o homem deve ser obediente pelo consentimento ou pela força; mas se o que é apenas submisso à necessidade se torna objeto de escolha, a lei é quebrada, a natureza é desobedecida, e os rebeldes são proscritos, expulsos e exilados deste mundo de razão, ordem, paz, virtude e penitência frutífera para o mundo antagônico da loucura, discórdia, vício, confusão e sofrimento inútil.
Estes, meu caro senhor, são, eram, e, penso eu, serão durante muito tempo os sentimentos da parte não menos instruída e ponderada deste reino.
Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke
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