terça-feira, 21 de julho de 2020

Imposto e Administração

Dizer ao povo que ele recebe assistência por meio da dilapidação de sua propriedade pública é uma fraude cruel e insolente. Os estadistas, antes de congratularem-se pela assistência dada ao povo pela destruição de sua receita, deveriam primeiro ter-se cuidadosamente aplicado à solução deste problema – se seria mais vantajoso ao povo pagar montantes consideráveis e ganhar em proporção, ou ganhar pouco, ou nada, e ser isentado de toda e qualquer contribuição? Minha mente está convencida a decidir-se em favor da primeira proposição. A experiência concorda comigo e, creio eu, as melhores opiniões também. Manter um equilíbrio entre o poder de compra por parte do súdito e as demandas da parte do estado a que ele deverá atender é o aspecto fundamental da habilidade de um verdadeiro político. Os meios de compra são anteriores, no tempo e na estrutura. A boa ordem é o fundamento de todas as boas coisas. Para ter condições de comprar, o povo, sem ser servil, deve ser afável e obediente. O magistrado deve ter sua reverência; as leis, sua autoridade. O conjunto do povo não deve encontrar enraizados fora de usa mente os princípios da subordinação natural pela astúcia. Ele deve respeitar aquela propriedade da qual não pode partilhar. Deve trabalhar para obter aquilo que pelo trabalho pode ser obtido; e quando percebe, como geralmente ocorre, que o êxito é desproporcional ao esforço da tentativa, deve ser ensinado a buscar sua consolação nas proporções finais da justiça eterna. Quem quer que o prive de tal consolação enfraquece seu zelo e atinge a raiz de toda aquisição, assim como de toda a conservação. Aquele que faz isso é o opressor cruel, o inimigo impiedoso do pobre e do miserável, ao mesmo tempo em que, por suas especulações perversas, expões os frutos do zelo bem-sucedido e dos acúmulos de fortuna para a pilhagem do negligente, do decepcionado e do impróspero. Muitíssimos financistas de profissão não conseguem ver na receita nada além de bancos, circulação, anuidades de seguros de vida, tontitnas, aluguéis perpétuos, e todos os pequenos artigos das lojas. Em um estado de ordem estabelecida, tais coisas não devem ser tratadas com leviandade, tampouco a habilidade nelas deve ser tida por algo trivial. Elas são boas, mas são boas apenas quando assumem os efeitos daquela ordem estabelecida e são construídas sobre ela. Contudo, quando os homens pensam que esses mecanismos pobres podem oferecer um recurso para combater os males que resultam da ruptura das bases da ordem pública, e de atos que provocam ou toleram a subversão dos princípios da propriedade, eles deixarão, com a ruína de seu país, um monumento triste e duradouro do efeito de políticas absurdas e de uma sabedoria presunçosa, míope e tacanha.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

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