terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Meditação e Presença

À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.

Estava o estômago no mais ativo de sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu espírito. Nenhum devaneio dos que arroubam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.

Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desborda o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.

E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.

E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.


Coração, Cabeça e Estômago - Camilo Castelo Branco

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