Claro, se Ulisses continuar na ilha de Calipso, não haverá Odisseia, e por conseguinte não haverá mais Ulisses. Então, o dilema permanece o mesmo: ou a imortalidade anônima – o que significa que, embora mantendo-se vivo para sempre, Ulisses terminará parecido com os mortos do Hades, que são chamados sem-nome, porque perderam sua identidade –, ou, se fizer a escolha oposta, uma existência mortal, é verdade, mas na qual Ulisses será ele mesmo, memorável, coroado de glória. Ulisses diz a Calipso que prefere voltar para casa.
Não há mais desejo, nem hímeros [desejo, ânsia] nem éros [amor, desejo], por essa Ninfa cacheada com quem ele vive há dez anos. E, se vai dormir com ela essa noite, é porque assim quer Calipso. Ele não quer mais. Seu único desejo é reencontrar a vida mortal, e inclusive deseja morrer. Seu hímeros se dirige para a vida mortal; quer concluir sua vida. Diz-lhe Calipso: “És tão afeiçoado a Penélope, preferes Penélope a mim? Achas que ela é mais bonita?”. “Ora essa, de jeito nenhum”, responde Ulisses, “és uma deusa, és a mais bela, a maior, mais maravilhosa que Penélope, bem sei. Mas Penélope é Penélope, é minha vida, é minha esposa, é minha terra”. “Muito bem”, diz Calipso, “compreendo.” E então ela cumpre as ordens e o ajuda a construir uma jangada. Juntos abatem as árvores, ligam os troncos para formar uma jangada sólida com um mastro. Assim Ulisses deixa Calipso e tem início uma nova série de aventuras.
O Universo, Os Deuses, Os Homens – Jean-Pierre Vernant
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