segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Beleza e Encarnação

O exame da Vênus de Ticiano indica qual a razão pela qual a pornografia não pertence à esfera da arte, por que ela é incapaz da beleza em si e por que dessacraliza a beleza das pessoas que retrata. A imagem pornográfica é como uma varinha mágica que transforma sujeitos em objetos e pessoas em coisas; assim, acaba por tirar-lhes o encanto e destruir a fonte de sua beleza. Ela faz as pessoas se esconderem por trás de seus corpos como marionetes manejadas por cordões ocultos. Desde o cogito de Descartes, a ideia do eu como homúnculo interior influenciou nossas opiniões acerca da pessoa humana. A imagem cartesiana nos instiga a crer que passamos a vida conduzindo um animal numa coleira, forçando-o a fazer o que queremos até ele entrar em colapso e morrer. Sou um sujeito; meu corpo, um objeto: eu sou eu, ele é ele. Assim, o corpo torna-se mais uma coisa entre tantas outras, e a única forma que tenho de resgatá-lo é assegurando meu direito de propriedade, afirmando que este corpo não é apenas um objeto velho, mas um objeto que pertence a mim. É precisamente desse modo que a relação entre alma e corpo é vista na imagem pornográfica.

Existe, contudo, uma forma melhor de ver as coisas, a qual explica boa parte daquela velha moralidade que muitos, hoje, consideram inquietante. De acordo com essa perspectiva, meu corpo não é propriedade minha, mas – para empregarmos o termo teológico – minha encarnação. Meu corpo é um sujeito tanto quanto eu, e não um objeto. Eu o possuo na mesma medida em que possuo a mim mesmo. Estou inextricavelmente ligado a ele, e tudo aquilo que é feito com meu corpo é feito comigo. Além disso, há formas de tratá-lo que me levam a pensar e sentir de modo diferente, a perder meu senso moral, a tornar-me frio ou indiferente aos outros, a cessar meus julgamentos ou seguir princípios e ideais. Quando isso acontece, não sou apenas eu quem se vê prejudicado, mas também todos aqueles que me amam, necessitam de mim e travam relações comigo. Afinal, fiz mal àquela parte sobre a qual relacionamentos se edificam.

A velha moralidade, para a qual vender o corpo era incompatível com a doação do eu, tocava uma verdade. O sentimento sexual não é uma sensação que pode ser acionada e interrompida à vontade; antes, é o tributo que um eu presta a outro e que, em seu ápice, proporciona a incandescente revelação de quem você é. Tratá-lo como bem passível de ser comprado e vendido como qualquer outro é prejudicar tanto o eu presente como o outro futuro. A condenação da prostituição não era apenas beatice puritana; tratava-se do reconhecimento de uma verdade profunda, qual seja: a de que você e seu corpo não são duas coisas distintas, de modo que vender o corpo endurece a alma. E aquilo que se aplica à prostituição, aplica-se também à pornografia. Ela não é um tributo à beleza humana, mas sua dessacralização.


Beleza – Roger Scruton

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