quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Mulher e Humanidade

A mulher é dupla. Ela é essa barriga que engole tudo o que o esposo colheu a duras penas, à custa do suor de seu rosto, de seu cansaço e de seu trabalho, mas esse ventre é também o único que pode produzir o que prolonga a vida de um homem, isto é, um filho. O ventre da mulher representa, contraditoriamente, a parte noturna da vida humana, o esgotamento, mas também a parte de Afrodite, esta que traz nascimentos novos. A esposa encarna a voracidade que destrói e a fecundidade que produz. Resume todas as contradições de nossa existência. Como o fogo, é a marca do que é propriamente humano, pois só os homens se casam. O casamento diferencia os homens dos animais, os quais se acasalam assim como se alimentam, ao acaso dos encontros, de qualquer jeito. Portanto, a mulher é a marca de uma vida civilizada; ao mesmo tempo, foi criada à imagem das deusas imortais. Quando se olha uma mulher, vê-se Afrodite, Hera, Atena. Ela é de certa maneira a presença do divino nesta terra, por sua beleza, sedução, por sua kháris [graça]. A mulher reúne as desgraças da vida humana e seu aspecto divino. Oscila entre os deuses e os bichos, o que é próprio da humanidade.


O Universo, Os Deuses, Os Homens – Jean-Pierre Vernant

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