quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Trivium e Dimensões

Vimos, portanto, que as disciplinas do Trivium não acabaram juntas no mesmo modelo pedagógico de maneira simples e fácil; isso se deu apenas depois de muito debate e brigas ferrenhas. Basta lembrar da rivalidade entre a escola de Platão e a de Isócrates.

Convém, no entanto, nunca esquecer essa rivalidade e essa tensão entre as artes, pois o equilíbrio entre elas é dialético, por assim dizer utilizando esse termo em uma acepção mais moderna, no sentido de que é preciso articular os três tipos de análise a cada momento do estudo. Dando um exemplo simplório: uma palavra é composta de som ou gráfica + significado dicionarizado, na gramática; esse significado, porém, do monto de vista da retórica, é modulado pelo apelo psicológico que a palavra também tem (para cada audiência em particular), pelas possibilidades de sentido figurado, etc., sua posição no argumento; do ponto de vista da dialética, a palavra será analisada dentro de um enquadramento lógico rigoroso, levando em conta se é substância ou acidente, qual seu gênero e diferença específica, etc. Todas essas dimensões estão dentro de cada palavra. Não que seja possível nem desejável submeter todos os termos de um texto a um escrutínio exaustivo; isso seria exacerbado logicismo (que também é uma tendência nociva existente no mundo pós-Trivium). Mas, de fato, é preciso fazer esse tipo de análise quando lidamos com as palavras-chave de um discurso.

Ao compor um texto, e na hora escolher por este ou aquele vocábulo, todas essas dimensões pesam, ainda que boa parte dos escritores não consiga nem sequer dar pela sua existência.

Bem, há ainda um aspecto a ser tratado com respeito à rivalidade das artes do Trivium. As facções rivais parecem ter um substrato comportamental. Assim, o leitor estudante do Trivium deve levar em conta que ele, provavelmente, se afeiçoará, preferirá e mesmo verá o mundo de um ponto de vista atinente a uma das artes em especial; mas isso não o deve impedir de estudar as outras. Assim, o tipo mais poético, de imaginação mais rica, com o tino para símbolos, paradigmas narrativos, sons, descrições, etc., deverá acabar deleitando-se mais no estudo da gramática. O tipo mais voltado para a ação no mundo, para o debate político ou para a pregação religiosa, para a liderança de grupos arregimentados, este provavelmente terá mais prazer no estudo retórico. O tipo mais científico, com pendor para as matemáticas, para o que é claro e distinto, para a vida contemplativa em sentido estrito, esse poderá encontrar-se mais bem instalado no estudo da dialética.

Tudo isso, claro, deve ser entendido cum grano salis. Existem tipos intermediários e até aqueles que insistirão que não se encaixam em nenhuma classe. Não é necessário brigar por causa disso. O importante é que se estudem todas as três artes.

 

Trivium e Quadrivium A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 Instituto Hugo de São Vitor

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