Vimos, portanto, que as disciplinas do Trivium não acabaram juntas no mesmo modelo pedagógico de maneira simples e fácil; isso se deu apenas depois de muito debate e brigas ferrenhas. Basta lembrar da rivalidade entre a escola de Platão e a de Isócrates.
Convém, no entanto, nunca esquecer essa rivalidade
e essa tensão entre as
artes, pois o equilíbrio entre elas
é “dialético”, por assim dizer – utilizando esse termo em uma acepção mais moderna, no sentido de que é preciso articular os três tipos de análise a cada momento do estudo. Dando
um exemplo simplório: uma palavra
é composta de som ou gráfica + significado dicionarizado, na
gramática; esse
significado, porém, do monto de
vista da retórica, é modulado pelo apelo psicológico que a palavra também tem (para cada audiência em particular), pelas
possibilidades de sentido figurado, etc., sua posição no argumento; do ponto de vista da
dialética, a palavra
será analisada
dentro de um enquadramento lógico rigoroso,
levando em conta se é substância ou acidente, qual seu gênero e diferença específica, etc. Todas essas dimensões estão dentro de cada palavra. Não que seja possível nem desejável submeter todos os termos de um
texto a um escrutínio exaustivo;
isso seria exacerbado logicismo (que também é uma tendência nociva existente no mundo pós-Trivium). Mas, de fato, é preciso fazer esse tipo de análise quando lidamos com as palavras-chave
de um discurso.
Ao compor
um texto, e na hora escolher por este ou aquele vocábulo, todas essas dimensões pesam, ainda que boa parte dos
escritores não consiga nem
sequer dar pela sua existência.
Bem, há ainda um aspecto a ser tratado com
respeito à rivalidade das
artes do Trivium. As facções rivais
parecem ter um substrato comportamental. Assim, o leitor estudante do Trivium
deve levar em conta que ele, provavelmente, se afeiçoará, preferirá e mesmo verá o mundo de um ponto de vista atinente
a uma das artes em especial; mas isso não o deve impedir de estudar as
outras. Assim, o tipo mais poético, de
imaginação mais rica,
com o tino para símbolos,
paradigmas narrativos, sons, descrições, etc., deverá acabar deleitando-se mais no estudo
da gramática. O tipo
mais voltado para a ação no mundo,
para o debate político ou para a
pregação religiosa, para
a liderança de grupos
arregimentados, este provavelmente terá mais prazer no estudo retórico. O tipo mais científico, com
pendor para as matemáticas, para o
que é claro e
distinto, para a vida contemplativa em sentido estrito, esse poderá encontrar-se mais bem instalado no
estudo da dialética.
Tudo isso, claro,
deve ser entendido cum grano salis. Existem tipos intermediários e até aqueles que insistirão que não se encaixam em nenhuma classe. Não é necessário brigar por causa disso. O
importante é que se estudem
todas as três artes.
Trivium
e Quadrivium – A
Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor
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