quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Amor e Morte

terrarum, quascumque vident occasus et ortus,
nos duo turba sumus; possedit cetera pontus.
haec quoque adhuc vitae non est fidúcia nostrae
certa satis; terrent etiamnum nubila mentem.
quis tibi, si sine me fatis erepta fuisses,
nunc animus, miseranda, foret? quo sola timorem
ferre modo posses? quo consolante doleres!
namque ego (crede mihi), si te quoque pontus haberet,
te sequerer, coniunx, et me quoque pontus haberet.


Do nascente ao poente, em toda a terra
Só habitamos nós, só nos vivemos:
Tudo o mais pelas ondas foi tragado,
E cuido que não tens ainda segura
Tua existência tu, nem eu a minha:
Estas nuvens, que observo, ainda me aterram.
Ah, triste! Que farias se arrancada
Ao fado universal sem mim te visses!
Onde, fria de susto, onde levaras
A planta vacilante, e quem seria
Tua consolação na dor, no pranto?
Crê, minha amada, que se o mar sanhudo
Te escondesse nas sôfregas entranhas,
Te houvera de seguir o aflito esposo,
Sócio te fora em vida, e sócio em morte.



O Dilúvio – As Metamorfoses – Ovídio – Tradução de Manuel du Bocage


* A planta vacilante: os pés; enfatizados pelo termo “planta” em seu caráter fixo, de raiz, são porém contrastados com o adjetivo “vacilante”, indicando que a solidez de Pirra, seu chão, estava no seu esposo.

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