A meta última da Retórica, enquanto escola de oradores e enquanto arte liberal, a qual não deve ser perdida de vista jamais, é conhecer como se encontram argumentos, e quais são os acessórios que os amplificam e adornam, para se causar a persuasão em cada caso. Destarte, todas as técnicas citadas precisam, ao fim e ao cabo de muito treino, enfeixar-se numa perícia quase intuitiva para se capturar argumentos, de maneira análoga ao sabujo que fareja sua presa e a conduz até o caçador.
Ao longo do
tempo, houve duas definições principais
de retórica. A platônico-aristotélica, que a explica como arte de
encontrar argumentos persuasivos, que referimos aqui; e a dos demais retóricos, e mais especialmente de
Quintiliano, que a definem como bene dicendi scientia, isto é, a ciência da boa expressão.
Não é nosso ofício neste livro introdutório confirmar uma destas, refutando
a outra; é bom que o
aluno que está principiando o
estudo conheça as duas e
medite a respeito, por ora.
Antes de
terminar o capítulo, resta
apenas discutirmos a dificuldade da moralidade. A crítica dos filósofos na Antiguidade dizia respeito
a esse aspecto do uso da retórica, ao ponto
de Platão afirmar, pela
boca de Sócrates, que a
retórica era um
falso uso das leis. A crítica é relevante, pois a utilização de um ferramental agudíssimo de persuasão para inculcar uma crença que seja sabidamente mentirosa, ou
da qual o orador não possui o
menor grau de segurança, configura
certamente uma ação deletéria que, se muito disseminada entre
a classe intelectual, poderá terminar por
corroer as bases da sociedade. Isso já foi visto por diversas vezes e, sem dúvida, em algum grau que não é de pouca monta, ocorre na sociedade
brasileira hoje em dia, mormente entre jornalistas, artistas e propagandistas
de toda sorte.
Com isso, não estamos dizendo que esse pessoal
tenha tido um treinamento completo em retórica: mas tão-somente que as técnicas retóricas de contrafação de argumentos e de ideias são de fácil aquisição e estão em perpétua circulação (já que tudo é mais fácil para quem só tem por meta arrebentar com tudo).
A isso,
somente uma retórica idônea poderá fazer frente. A dialética e a filosofia tratam dos temas
de forma muito abstrata para que possam penetrar nas massas: é preciso, pois, que verdadeiros
retores e oradores – ou ao menos filósofos e cientistas que detenham as técnicas dessa arte –, possam tomar de assalto o palco
das discussões públicas a fim de pregar alguma
racionalidade e sincera devoção à verdade.
Trivium
e Quadrivium – A
Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor
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