quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Retórica e Ordenação

Retórica

A arte da retórica, do currículo escolar brasileiro, está ausente há muito tempo. Seu abuso, não obstante, e por incrível que pareça, é uma das características que tem definido nossa literatura, a de ficção tanto quanto a acadêmica, desde sempre isto é, no sentido negativo de ornamentação pomposa e rebuscada, de garrulice pedante e oca.

Claro que esse sentido negativo pouco ou nada tem que ver com a verdadeira retórica, como entendida pelos antigos. Entretanto, é assim que o termo é usado hoje em dia: para designar os penduricalhos em um discurso vazio, ou certas técnicas para ludibriar o comprador e efetivar uma venda.

Na tradição antiga, já existia a tendência a equiparar a retórica aos ornatos que embelezam, à ordenação dos argumentos, às poses e tons da declamação; e, com certeza, esses aspectos fazem parte da arte, quando bem compreendidos. Há, porém, aspectos mais profundos dela também, que aqui serão tratados.

Para começo de conversa, na Grécia Antiga, a retórica foi alvo do ataque platônico que a criticava por ser usada como um instrumento imoral de convencimento enganoso; ao mesmo tempo, era vista como inferior à dialética: esta seria caminho para a verdade certa e segura, ao passo que a retórica lidaria com argumentos apenas verossímeis, que aparentam a verdade.

Em meio a essa disputa, Aristóteles interpôs um princípio de ordem ao associar a retórica com a dialética, na condição de άντιστροφή, antístrofe. Neste panorama, as duas artes respondem uma a outra; assim, elas tratariam das mesmas questões em muitos casos, mas de maneira diversa, sendo uma abordagem o complemento da outra.

Com relação à retórica, Aristóteles a enxergava como uma faculdade para encontrar os argumentos mais persuasivos em cada situação. Uma das dificuldades que podemos ter com relação à compreensão da natureza dessa arte é devido ao fato de que ela lida com opiniões e com o convencimento, que são fenômenos mentais. Assim, ao contrário da arte da gramática, que possui um substrato material no som e na grafia, a retórica lida diretamente com entes de razão e com sentimentos subjetivos. Com efeito, as opiniões e os argumentos fazem parte dos meios de persuasão. E a própria persuasão, ou convencimento, é um assentimento da razão com algum grau de segurança psicológica. Ora, em muitas ocasiões, não conseguimos mensurar em nós mesmos qual é o grau de que temos em uma opinião. Assim sendo, não espanta que para muitos a retórica seja uma arte com meios e fins fantasmagóricos, mera manipulação.

Por outro lado, outros esposam a opinião oposta, e afirmam que, na verdade, ao homem só é possível alcançar opiniões mais ou menos seguras conforme a habilidade do orador, estando a ele vedadas as certezas absolutas sobre qualquer assunto. Há outros que, indo até mais longe, afirmam que não é possível ter segurança sobre nada, restando apenas adotar o filtro retórico que seja mais funcional na vida prática como Scott Adams no livro Win Bigly. Quem assim opina geralmente possui um pendor para enxergar o mundo através de lentes retóricas.

Seja como for, a verdade é que a arte retórica, mormente dentro no painel de estudos do Trivium, tem como uma das metas prover o aluno com os instrumentos para atuar no mundo labiríntico das opiniões principalmente das opiniões políticas e do direito.

Coisa que já se observou muita vez, as opiniões com menor grau de certeza são as que mais geram em torno de si furor e beligerância. Daí que vejamos com triste frequência intelectuais com dificuldade no discernimento entre fato e opinião, e maior dificuldade ainda em se conseguir aquilatar a validade de uma crença pessoal; de modo que o que reina é o capricho e o gosto pessoal, mesmo em assuntos graves que requeriam uma análise técnica. É justamente essa análise técnica o que a retórica possibilita.

Na visão aristotélica, a retórica é considerada a ciência ou arte de desenvolver as questões em debate na sociedade até o ponto em que estejam prontas para o confronto dialético. Assim, a retórica colhe das impressões, opiniões e crenças as diversas correntes em uma sociedade e começa a trabalhá-las, através da busca por argumentos que as corroborem. Normalmente, o que ocorre é que os argumentos trabalhados retoricamente acabam dando azo à criação de seitas engessadas, e partir daí surgem debates e mais debates, geralmente inflamados. Um exemplo clássico é a separação ocidental entre direita e esquerda (com todas as inúmeras subdivisões que dela decorrem), que há mais de 200 anos pauta infindáveis discussões políticas, as quais até hoje não tiveram uma solução conclusiva e parecem longe de ter.

A esta altura, já podemos divisar dois sentidos para a palavra. Retórica pode significar a faculdade natural de procurar argumentos em favor de uma tese qualquer; ou, então, a arte extremamente refinada que foi engendrada para facilitar o alcance desse fim. Isto é dizer que, já por natureza, tendemos a sair à cata de argumentos que embasem nossas crenças e que possam servir para convencer nossos interlocutores; ao passo que a arte vem corroborar e racionalizar essa atividade humana.

Junto com essa atividade, porém, há inevitavelmente misturado o perigo da desvirtuação. Foi contra ele que os filósofos se levantaram no passado. E, ao longo da história do Ocidente, essa disputa foi reencenada diversas vezes. Mais recentemente, a escola filosófica dos chamados utilitaristas foi uma retomada dos postulados viciosos dos sofistas, que eram retóricos na Grécia Antiga que diminuíam a capacidade intelectual humana a um subjetivismos quase absoluto; só não o era por completo porque os próprios sofistas vendiam justamente a técnica que diziam ser a adequada para influenciar os outros e se dar bem na vida.

Assim, se formos aos extremos viciosos, a entronização da retórica vai na direção do subjetivismo, bem como a da dialética vai na direção de um objetivismo exacerbado que também é malsão. Somente o ajuste adequado dessas duas visões de mundo, personificadas na retórica e na dialética, darão equilíbrio ao modo de ver do estudante. Um exemplo excelente desse equilíbrio pode ser encontrado na obra do nosso Mário Ferreira dos Santos, que formulou sua decadialética e pentadialética para bem ponderar os aspectos subjetivos e objetivos da percepção e do intelecto humanos.

Bem, mas então alguém poderá perguntar-se: por que a retórica conduz ao subjetivismo?

Acontece que a retórica lida com questões em voga na sociedade as quais não foram e não podem ser resolvidas de forma analítica. E são questões sobre as quais as pessoas têm uma crença e uma opinião pessoais. Desta forma, o modo retórica de trata-las é apelar para as crenças gerais da sociedade, e não diretamente para a razão objetiva. No mais das vezes, como dito, nem sequer é possível fazer uma análise objetiva. Vemos, assim, que muito do foco da retórica está na plateia, e não no argumento puro e simples. E é esse aspecto que pode conduzir ao subjetivismo ou ao utilitarismo.

Com o que foi dito no parágrafo anterior, nota-se que, na argumentação de tipo retórico, a tentativa de ir contra uma crença bem estabelecida da sociedade é praticamente um suicídio argumentativo. Desta forma, um advogado que tentasse argumentar a favor da moralidade do assassinato teria chances tendentes a zero de sucesso. Por outro lado, argumentar que seu cliente não cometeu assassinato, mas autodefesa, está dentro do escopo dessa arte.

Esse aspecto subjetivo, que é a obrigação de se ter sempre a plateia em mente, é a explicação também de outro aspecto da retórica: o embelezamento e a ordenação do discurso.

Algumas mentes de índole fortemente dialética torcem o nariz para esse aspecto, pois pensam que a verdade e a objetividade de uma afirmação são o que importa, e que qualquer adorno discursivo servirá apenas para desviar a atenção do foco. Tais pessoas, é força dizer, dificilmente vencerão uma eleição ou um concurso que requeira apresentação de qualidades amáveis e urbanas; ou, pelo contrário, dificilmente conseguirão mover um exército de pessoas a bater-se contra um inimigo que esteja prestes a destruir sua civilização.

É um fato que o homem não é razão calculante apenas; mas, também, e muitas vezes principalmente, desejo e paixão. Ignorar estas dimensões, e viver no aguardo da era em que a humanidade vá finalmente estar livre delas, é tentativa de fuga da realidade. Devemos admitir, assim, que o homem é vir desiderorum e que ama o belo e o prazenteiro bem como sente repulsa pelo feio e pelo doloroso. Por isso, no âmbito do discurso retórico, a beleza e a organização serão inevitavelmente parta da ordem do dia.


Trivium e Quadrivium – A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor

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