quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Derrota e Esperança

Vendo-os dispostos a entrar na peleja, tomados de brio,
disse-lhes: ‘Jovens de inútil esforço e ousadia! No caso
de me acolherdes o apelo para uma entrepresa arriscada,
quase loucura, bem vedes para onde a Fortuna bandeou-se:
todos os deuses, esteios da pátria, os santuários e altares
já abandonaram. Correis em defesa de ruínas e escombros
em labaredas. Morramos, então! Avancemos sem medo!
Para os vencidos só há salvação na esperança perdida’.
Com essas palavras inflamo até ao máximo o peito dos jovens.
Tal como lobos rapaces que cegos de fome imperiosa
saem de noite à procura de presa e da cova se afastam,
onde os filhinhos o aguardam com fauces sedentas: por dardos,
por hostes densas rompemos no ruma da morte, até ao centro
da grande Troia. Atra noite por cima de nós circunvoa.
Quem poderia narrar os horrores, o atroz morticínio
daquela noite, ou com o pranto igualar o trabalho dos teucros?
Caiu por terra uma antiga cidade, rainha das outras.


Quo subi confertos audere in proelia vidi,
incipio super his: ‘Iuvenes, fortissima frustra
pectora, si vobis audentem extrema cupido
certa sequi, quae sit rebus Fortuna videtis:
excessere omnes adytis arisque relictis
di quibus imperium hoc steterat; succurritis urbi
incensae; moriamur et in media arma ruamus.
Una salus victis nullam sperare salutem’.
Sic animis iuvenem furor additus. Inde, lupi ceu
raptores atra in nebula, quos improba ventris
exegit caecos rabies, catulique relicti
faucibus exspectante siccis, per tela, per hostes
vadimus haud dubiam in mortem mediaeque tenemus
urbis iter; nox atra cava circumvolat umbra.
Quis cladem illius noctis, quis funera fando
explicet, auto possit lacrimis aequare labores?
Urbs antiqua ruit, multos dominata per anos;


Livro II

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes

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